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sábado, 15 de novembro de 2014

"Não posso. Porque eu sou negro"

Por João Paulo Porto


- Eu queria ser médico, mas não posso.

- Não pode porquê?

- Porque sou negro



Eu tenho um paciente negro, de 8 anos, que é absurdamente inteligente. De família pobre, sua mãe, igualmente inteligente, fez, por conta própria, a árvore genealógica da família, de forma organizada, num caderno, cheio colagens e o mostrou durante a consulta.

Acontece que, há 4 gerações, o avô do avô dela era escravo. Logo após a abolição da escravatura, ele foi expulso da fazenda onde trabalhava por ser velho demais e acabou morando na rua, com uma família de 4 pessoas, até morrer de tuberculose.
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O pai do avô dela, seu filho, teve que sustentar a família fazendo bicos e cometendo pequenos delitos, de forma que foi preso logo após engravidar a mãe do avô dela, dando origem, claro, ao avô dela.

Esse avô nasceu já sem pai, pois o mesmo faleceu na prisão, quando ele tinha 8 anos de idade. Cresceu sem possibilidade de estudo, tendo que trabalhar desde muito novo, para sustentar a mãe e 3 irmãos mais novos, de outra relação da mãe. Essas 4 crianças ficaram sozinhas quando ele tinha 15 anos, após o falecimento dela. Trabalhando em fazendas, teve 5 filhos, o quinto, seu pai.

Ele nunca foi à escola, cresceu na fazenda e quando ser tornou homem feito, casou-se e teve 4 filhos, incluindo essa mãe. Ela também cresceu na fazenda e não teve chance de estudar. Hoje, faz faxinas e faz questão de que os filhos estudem.
- Você é muito inteligente. - disse eu ao garoto.
- Obrigado.
- Já sabe o que vai ser quando você crescer?
- Já. Vou ser caminhoneiro.
- Mas não pensou em outra coisa, você tem muita capacidade, pode ser qualquer coisa!
- Bem, eu queria mesmo ser médico...
- Ora, então seja!!
- Não posso!
- Não pode? Não pode por que?
- Porque eu sou negro.
Imagine você o porquê de ele pensar assim. Imagine você como estar há 5 gerações da escravatura pode ter influenciado a história dessa família e a atual condição dessa criança. Imagine como o preconceito de décadas minou as chances dessa família de dar aos seus descendentes uma vida melhor do que tiveram...

Imagine agora, o quanto você é absurdamente privilegiado em relação a eles.

Agora, tente novamente encher a boca pra dizer que a questão racial não é mais relevante, que cotas não são justas, que programas de distribuição de renda são coisa de vagabundo e que você tem o que tem hoje realmente por mérito seu...
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 João Paulo Porto - Médico Pediatra e Neurologista Infantil e guitarrista na banda noventista Lava Divers; fascinado pela influência da neurociência evolucionista na história, antropologia e comportamento.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Verdadeira Revolução Social no Brasil

Por PAULO FRANCO

"O berço da desigualdade é a desigualdade do berço." (Sebastião Salgado)


As forças que movem as transformações sociais hoje no Brasil não são mais forças "centrífugas", de natreza elitista em que jovens de classe média e média alta, tomados por consciência social, assumem as dores dos marginalizados, dos injustiçados pelo sistema e vão para as ruas lutar contra o status-quo, clamando por uma nova ordem social.

A forças que movem o movimento social, as relações humanas entre pessoas e grupos sociais, que estão provocando verdadeiras mudanças estruturais na sociedade é uma força "centripeta", de fora para dentro, do marginalizado para o privilegiado.  Não são movimentos clamando por mudanças, são movimentos provocando mudanças, que aliás, continuem não sendo compreendidas pelas camadas sociais aparentemente e ilusoriamente,  proprietárias do curso da historia.
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É obvio que para que essas forças sociais se transformem em mudanças, rompendo barreiras, vencendo obstaculos seculares, houve a construção de um cenário, um ambiente que fosse propício a tudo isso, que foram as mudanças no fluxo de renda e nos acessos aos bens e serviços públicos, de lazer à educação promovida pelos governos a partir de 2003.