BOAS VINDAS

A idéia deste blog é a criação de um espaço para o questionamento de duas grandes forças das ideologias atuais: o Capitalismo e o Socialismo. Que, senão são coincidentes,não são também totalmente opostas. Terceira Via é nada menos do que uma Resultante dessas duas forças. Abrindo assim, um campo para o existência de uma opção, que não é uma coisa nem outra e ao mesmo tempo são as duas coisas. Eu acredito muito nessa vertente, como alternativa para convergir anseios de ambas as correntes. Num olhar metodológico, poderiamos enxergar essa possibilidade como uma demonstração empírica da dialética. Enquanto o Capitalismo está mais associado ao racional, à eficiência, à lógica; o Socialismo está mais associado ao nosso cognitivo, à sensibilidade, sentimentos, percepções, etc. Acredito ainda, que só a Democracia viabiliza essa vertente. A Ditadura, sem dúvida, enviesará para o socialismo ou para o capitalismo radical. ENTÃO SEJA BEM VINDO, COLOCANDO SUA CONTRIBUIÇÕES, SUAS IDÉIAS, SUAS DÚVIDAS, ETC. (Paulo Franco)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Um país sem excelências e mordomias

Claudia Wallin



Geração Editorial lança Um país sem excelências e mordomias, da jornalista Claudia Wallin, livro que retrata um reino distante chamado Suécia, mas que tem muito a ensinar aos (e)leitores brasileiros

Eleito o melhor ministro de finanças da Europa pelo jornal inglês Financial Times, Anders Borg vive em um apartamento de 25 m2. Deputados espremem-se em exíguos 18 m2. Não têm direito a nenhum luxo mesmo vivendo numa das nações mais ricas do planeta. E não aumentam os próprios salários. Não possuem carro oficial, motorista ou um cortejo de assessores. Andam de metrô, ônibus, bicicleta ou a pé. E correm o sério risco de caírem em desgraça – e até irem parar nas manchetes – se usarem táxi sem necessidade ou simplesmente por comprarem uma barra de chocolate com o cartão corporativo. Vereadores não têm salários. Políticos vivem em casas simples.

Tudo isto parece fantasia, mas é a mais pura realidade, que a jornalista brasileira Claudia Wallin observou durante dez anos e transformou no livro Um país sem excelências e mordomias (R$39,90 / 344 pág.), que a Geração Editorial está lançando. A sociedade em questão é a da Suécia mas, ao longo da narrativa fluente e bem-humorada, o Brasil está presente como um espelho invertido. O que nos deixa cheios de inveja. Por exemplo: qualquer político é chamado simplesmente de “você”. O tratamento de “Excelência” foi abolido faz tempo.
____________________
Postagens Relacionadas:
JANGO: Projeto de Nação
A Ditadura das Empreiteiras
Christiania, a cidade livre da Dinamarca
Suécia fecha 4 prisões e prova: a questão é social
”Impostos são o preço que se paga por uma sociedade civilizada”
____________________

Deputados e ministros lavam e passam suas próprias roupas! Claudia nos deixa ainda mais embasbacados quando entrevista o primeiro-ministro: aspirador em punho, ele limpa a própria casa! E, como se fosse pouco, dá dicas na imprensa sobre como fazer uma limpeza mais eficaz…

Quem sai da linha sofre o peso da lei. Nem as celebridades escapam. Suspeito de fraude fiscal, o cineasta Ingmar Bergman foi preso no próprio teatro e arrastado para dar explicações. Teve um infarto, mas não foi perdoado.

Ao ler este espantoso livro sobre a Suécia, mais parece que estamos lendo um livro de ficção científica, sobre um país utópico qualquer. Mas como isso pôde ser possível? Como a democracia pôde se consolidar naquele país gelado, habitado no passado remoto por um bando de selvagens louros que a lenda desenhou vestindo peles e usando chifres na cabeça?

“História. Educação. Reforma política. Construção e defesa de instituições sólidas. A Suécia, há menos de 100 anos, era um país pobre, mas habitado por um povo determinado a sair da pobreza e do atraso. E conseguiu”, afirma Luiz Fernando Emediato, editor e publisher da Geração Editorial. O segredo – que não é segredo, segundo Emediato – é sempre o mesmo: “investimento em educação, ciência, tecnologia, justiça, projetos nacionais integrados.”

Um país sem excelências e mordomias não é apenas uma fotografia do presente. Vasculhando no passado os fundamentos da democracia sueca, Claudia viaja até as comunidades vikings e seu costume de tomar decisões, em grupo e no voto, passa pela Idade Média e o tumultuado século 19. Entrevista ministros, deputados, jornalistas, prefeitos, juristas, cidadãos para desvendar este universo tão distante dos brasileiros. E encontra o tripé que gerou e mantém este país singular: transparência, alta escolaridade e igualdade social. É, ainda, uma receita poderosa contra a corrupção.

O posfácio do livro, escrito de forma brilhante pelas jornalistas Izabelle Torres e Josie Jerônimo, traz uma aula para o Brasil, que sustenta o segundo congresso mais caro do mundo – atrás apenas dos Estados Unidos. E nesse desfecho que nosso país emerge do subtexto e sobe a superfície com suas mazelas. Aqui, política é sinônimo de mordomia e cada parlamentar custa US$ 7,4 milhões/ano. No Brasil, ministros viajam de jatinhos da Força Aérea Brasileira, possuem carro com motorista e privilégios na alfândega. De vez em quando, pegam carona em aviões de empresários, ganham presentes… Deputados contam com verbas altas para tudo – gasolina para automóveis e aviões, comida, assessores, passagens. Ministro viajar em aviões da FAB é normal e legal. Pegar carona em aviões de fornecedores do governo, não – e eles são denunciados quando surpreendidos. Mas isso é o de menos, como você vai ver neste livro que, ao tratar de um país distante – a Suécia – nos faz lembrar a todo tempo do Brasil.

No Brasil, o sistema de governo – analisa Emediato – é de República Presidencialista, com um Executivo, um Legislativo e um Judiciário, mas, que coisa estranha, o Judiciário legisla, o Legislativo participa do Executivo, nomeando ministros, secretários e altos funcionários de bancos e estatais, e o Executivo também legisla… A “res publica”, a coisa pública, torna-se imediatamente propriedade privada, de pessoas, grupos e corporações.

Pudera, os parlamentares têm direito não aos cubículos de 18m2, mas a imensos apartamentos, alguns com banheira de hidromassagem e mobília de grife. Presidentes e governadores moram em palácios, enquanto os 11 ministros e o STF consumirão R$ 564 milhões neste ano.

Assim como é fascinante ler este livro, é desanimador concluir que ainda falta muito, mas muito mesmo, para o Brasil atingir um nível de civilização que nos permita ombrear com as democracias de verdade. Sem reforma política – por uma Comissão Independente, pois o Congresso atual não a fará – e sem investimento em educação nada ou pouco se obterá.

Como se percebe, Um país sem excelências e mordomias tem muito a ensinar ao leitor e, sobretudo, ao eleitor.
____________________

Cláudia Wallin, Jornalista e consultora radicada na Suécia. Trabalhou dez anos em Londres como diretora da International Herald Tribune TV, chefe do escritório de Jornalismo da TV Globo de Londres e produtora da seção brasileira da BBC World Service, após carreira no jornal O Globo do Rio de Janeiro. Colaboradora da Rede Bandeirantes de Televisão e da BBC Brasil. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário