BOAS VINDAS

A idéia deste blog é a criação de um espaço para o questionamento de duas grandes forças das ideologias atuais: o Capitalismo e o Socialismo. Que, senão são coincidentes,não são também totalmente opostas. Terceira Via é nada menos do que uma Resultante dessas duas forças. Abrindo assim, um campo para o existência de uma opção, que não é uma coisa nem outra e ao mesmo tempo são as duas coisas. Eu acredito muito nessa vertente, como alternativa para convergir anseios de ambas as correntes. Num olhar metodológico, poderiamos enxergar essa possibilidade como uma demonstração empírica da dialética. Enquanto o Capitalismo está mais associado ao racional, à eficiência, à lógica; o Socialismo está mais associado ao nosso cognitivo, à sensibilidade, sentimentos, percepções, etc. Acredito ainda, que só a Democracia viabiliza essa vertente. A Ditadura, sem dúvida, enviesará para o socialismo ou para o capitalismo radical. ENTÃO SEJA BEM VINDO, COLOCANDO SUA CONTRIBUIÇÕES, SUAS IDÉIAS, SUAS DÚVIDAS, ETC. (Paulo Franco)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Coisa de mulherzinha?


Sentir e expressar emoções é fundamental para os homens. 

Muito interessante essa campanha da Natura.  Os profissionais respensáveis pelas campanhas publicitárias da empresa, captaram um dos temas mais polêmicos no momento atual e  que mais tem proporcionado debates calorosos, envolvendo ideologia, religião, política. 

Veja, analise e reflita também, sobre o assunto. 





Desde pequenos, os meninos se acostumam a ouvir frases e comentários que reprimem suas expressões e sentimentos.
“Homem não chora”.
“Vira homem”
 “Isso é coisa de mulherzinha”.
 “Homem não usa brinco” 
"Joga que nem homem"
“Não vai desmunhecar, hein”

Frases assim não são ditas da boca pra fora, e carregam uma série de significados por trás — normalmente buscam se distanciar de algum estereótipo ou clichê associado ao feminino. Cedo ou tarde, no entanto, essa educação restritiva masculina cobra seu preço. Para quem aprende a represar o sofrimento e segurar o choro, expressar sentimentos não é um caminho fácil de seguir. Como é que pessoas que não sabem ou não se permitem entrar em contato com emoções podem se sentir à vontade para dizer, por exemplo, “eu te amo”?

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A questão é que valores como afeto, acolhimento, amorosidade, tolerância e sensibilidade são universais, e não uma exclusividade desejável apenas para o gênero feminino. Que homem não gostaria de ter (ou ser) um pai capaz de abraçar, dar carinho, entender e se conectar com um filho de forma profunda, por exemplo?

É tempo de tirar frases como “isso é coisa de menina” do nosso vocabulário e abrir espaço para o desenvolvimento de masculinidades menos preocupadas em provar o tempo todo o que são e mais voltadas para entender de que maneira querem estar no mundo.

É complicado estar à vontade com nossas facetas o tempo todo, mas é insustentável fingir que elas não existem. Nossa identidade é composta por vários ângulos, em constante movimento. Vamos celebrá-los.



De acordo com o dicionário Aurélio, o principal significado para a palavra guerreiro é “pessoa que combate numa guerra”. Mas, de acordo com a milenar cultura das artes marciais, há muito mais por trás da construção da ideia do guerreiro do que aquilo que nossa sociedade consegue resumir em uma frase.

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Na China de 5.000 anos atrás, ser guerreiro independia de gênero, cargo, status, classe social, orientação sexual ou qualquer rótulo que utilizamos nos dias de hoje. Para além dos golpes, a formação de um guerreiro morava em uma busca incessante pelo equilíbrio.

No dia a dia da sociedade moderna, costumamos classificar como guerreiros aqueles homens que, muitas vezes, precisam encarar grandes desafios e chegam ao outro lado do embate como vencedores. Também valorizamos muito quem tem a capacidade de elaborar raciocínios complexos ou manter a mente sempre ativa e alerta, a ponto de não parar de pensar.

Na sabedoria oriental, no entanto, cabe ao guerreiro manter sua mente sob controle. Não é preciso dizer muito. O silêncio já fala por si. É a mente que deve obedecer o seu dono, e não o contrário. Com valores como sinceridade, paciência e perseverança como guias, um shaolin não precisa se ancorar em demonstrações de liderança, força, bravura, audácia ou valentia.

A noção clássica de masculinidade treina os homens para atingir o sucesso, mas ocupar cargos de poder e ter um cartão de chefe é transitório. Ter consciência da nossa vulnerabilidade e ser capaz de inspirar as pessoas ao nosso redor com honra e lealdade são maneiras muito mais eficazes — e sustentáveis — de liderar.

Na prática, o objetivo não é simplesmente triunfar. Afinal, o que realmente define o guerreiro não é a vitória — fracassos, derrotas e finais de ciclo são momentos tão chave de nossas vidas quanto as conquistas —, mas a sabedoria com que ele conduz as situações que enfrenta.

Encarar grandes desafios e chegar ao outro lado do embate como vencedor não é nada. O que de fato define um guerreiro é a maneira como ele consegue atravessar as situações.



De acordo com a ciência, os seres humanos têm sete emoções básicas e universais: felicidade, surpresa, raiva, medo, tristeza, repulsa e desprezo. Apesar disso, não são raras às vezes em que nós, homens, evitamos aceitar que elas existem ou expressá-las.

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Divulgada em 2016, uma pesquisa realizada pela ONU Mulheres e pelo portal PapodeHomem com mais de 10 mil homens por todo o Brasil, revelou que 66,5% de nós, homens, não falamos sobre medos e sentimentos profundos nem com nossos melhores amigos.

É claro que falar de coisa boa é ótimo, mas se não permitirmos que as pessoas que gostam da gente entrem em contato com situações ruins ou que nos incomodam, quais as chances de que esses amigos realmente nos conheçam?

Pior: com o passar do anos, depois de ignorar e deixar tantas coisas de lado, será que nós mesmos nos conheceríamos bem o suficiente? Ou só estaríamos em contato com uma parte do que somos, o personagem que escolhemos mostrar publicamente?

Chega de criar obstáculos para nós mesmos. É tempo dos homens se expressarem — e se aceitarem — por inteiro.

Viver uma relação completa com nossas emoções mais básicas permite que a gente entenda e seja justo com quem a gente, de fato, é.

Sem modelos a serem seguidos, sem colocar ainda mais pressão sobre os nossos ombros. A nossa verdade, o nosso ritmo, o nosso jeito de ser e estar no mundo.

Já ouviu aquela frase “seja homem”?

Seja você. Por inteiro.



Eduardo é caladão, e não gosta de se abrir o que sente com ninguém — mas faz o que precisa ser feito. É a ele que os amigos recorrem quando as coisas apertam.

Guilherme está sempre com um sorriso no rosto. Depois de sofrer quieto a adolescência inteira, decidiu que era melhor fazer as piadas do que ser o alvo de uma.

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Pelo quinto ano consecutivo, Lucas recebeu uma promoção e um aumento. Pela milésima vez desde que o namorado foi embora, sentiu insônia ao rolar pela cama grande em um casa vazia.

Desde pequeno, João é emotivo. Entre abraços e afetos, já chorou de saudades, de alegria, de tristeza ou simplesmente porque o cachorro daquele filme morreu.

Das ousadias de moleque ao dia em que largou a escola, Rodrigo nunca foi considerado um bom filho. Mas agora que o Júnior chegou e a família cresceu, só quer saber de uma coisa: ser o melhor dos pais.

Alguns homens são mais sensíveis e abertos, enquanto um bocado de nós é mais duro e conservador. Uns são modernos, enquanto outros preferem a segurança das tradições.

Traçamos 5 perfis, mas poderíamos reunir 50, 500 mil ou alguns milhões de histórias. Novo homem? Homem das antigas? Que tal só: homens, assim mesmo, no plural? Afinal de contas, há tantas maneiras de exercer as masculinidades quanto o número de homens que existem no mundo.

Cada um de nós faz as coisas de um jeito, e o segredo para todas elas coexistirem mora, justamente, em saber dialogar com as diferenças.

É preciso abrir espaço para tudo o que os homens querem e precisam dizer. Perguntar e responder. Duvidar e entender. Escutar e aprender.

Caminhar juntos. Essa é a beleza da vida em movimento.
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FONTE: Natura

domingo, 29 de outubro de 2017

Ocupação do MST no Paraná ganha prêmio por recuperação da Mata Atlântica

Por Júlia Rohden


Prêmio Juliana Santilli reconhece prática que alia produção de alimentos e preservação ambiental

Acampamento ocupa parte da APA de Guaraqueçaba e desde 2003 concilia a produção de alimentos livres de agrotóxicos  - Créditos: Júlia Rohden
Acampamento ocupa parte da APA de Guaraqueçaba e desde 2003 concilia a produção de alimentos livres de agrotóxicos / Júlia Rohden

“Mato para nós não é problema, é solução” brinca o agricultor Jonas Souza. Ele integra uma das 20 famílias do acampamento José Lutzenberger, no município de Antonina. O acampamento ocupa parte da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaraqueçaba, no litoral norte do Paraná, e desde 2003 concilia a produção de alimentos livres de agrotóxicos - de couve à café - com a recuperação da Mata Atlântica. Por isso, a comunidade foi contemplada no prêmio Juliana Santilli, na categoria ampliação e conservação da agrobiodiversidade. A premiação acontecerá em 21 de novembro, em Brasília, e envolve a entrega de troféu, de selo de reconhecimento e apoio financeiro para intercâmbio de experiências.

As famílias comemoraram o prêmio como uma forma de dar visibilidade ao projeto. “Estamos mostrando que nós ocupamos uma área totalmente degradada e estamos recuperando a mata e ainda produzindo alimento sem veneno. Isso mostra que a reforma agrária é um projeto viável, não apenas na questão social, mas também na ambiental”, comenta Jonas, que também é um dos coordenadores do acampamento.


Cerca de 90% do que é produzido pelos agricultores é destinado para as escolas da região através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Jonas explica que as famílias trabalham em cerca de 10% da área total, que compreende 240 hectares. “Para trabalhar no sistema agroflorestal não precisa de grandes áreas”, explica. Ele comenta que a perspectiva é ocupar cada vez mais o espaço com a produção.

Apesar de bem estruturado, com casas de alvenaria e energia elétrica, o acampamento ainda está em processo de assentamento. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) está negociando a compra da terra com os antigos proprietários.


“Conheci a área antes dos fazendeiros usarem para criar boi. Era uma área preservada, o rio tinha muito peixe e a comunidade plantava para subsistência”, lembra Jonas. Ele conta que as famílias não tinham o documento de posse da terra e os fazendeiros começaram a cerca e ocupar o território. “Por isso começou a luta pela terra e decidimos acampar”, completa o agricultor.


Nos primeiros três anos, as famílias resistiram ao desejo de desistir da área. O rio estava poluído, o solo rebaixado e encharcado, e o pasto dominava a paisagem. Se no início tiveram dificuldade para produzir alimentos para subsistência, hoje a perspectiva é aumentar a produção. A área degradada pela atividade pecuária vai lentamente se recuperando e o resultado fica evidente até aos olhares desatentos: nos lotes que já receberam os cuidados dos agricultores há árvores altas e diversos tipos de plantas, enquanto, muitas vezes ao lado, as áreas que não receberam o manejo são um pasto alto.

Katya Isaguirre, professora de direito ambiental e agrário da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que acompanha de perto o acampamento José Lutzenberger, por meio do grupo de pesquisa Ekoa, incentivou a comunidade a se inscrever no prêmio, junto com outro grupo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. “É evidente que a agrofloresta revive a natureza e o exemplo demonstra visivelmente como a paisagem se recupera ao tempo em que os agricultores produzem alimentos saudáveis que lhes garante condições de autonomia”, afirma.


No local é possível encontrar vários estágios de agroflorestas e são testadas diferentes técnicas de manejo e preparo do solo. O primeiro passo para a recuperação é fazer o “berço”, com plantas como hortaliças e banana. Com o tempo e o manejo adequado, os agricultores vão inserindo novas plantas de portes variados.

Jonas Souza ressalta que o sistema agroflorestal traz diversos benefícios. Além da recuperação e preservação da Mata Atlântica, as famílias camponesas passam a ter a geração de renda e a consumir alimentos de qualidade. “Também é beneficiado quem consome esse alimento livre de agrotóxico que, no caso, são principalmente as crianças das escolas municipais e estaduais”, opina.


O acampamento, por meio da Associação Filhos da Terra, atende a quatro municípios pela rede estadual (Guaratuba, Morretes, Antonina e Pontal do Sul) e outros três (Matinhos, Antonina e Guaratuba) pela rede municipal de educação, por meio do PNAE. A cada semana são enviados para a rede estadual 1080 kg de tubérculos, 1545 kg de frutas, 390 kg de hortaliças e 45 kg de tempero, informa Ana Paula Rodrigues. A moradora explica que para a rede municipal a quantidade varia de acordo com a demanda da nutricionista escolar e, além dos alimentos in natura, também são enviadas geleias, doces e polpas de frutas. “Tudo produção agroecológica certificada”, destaca.


Jonas Souza diz que a expectativa para 2018 é criar uma cooperativa e participar de novas chamadas públicas. Até o fim deste ano, uma nova unidade deve ser finalizada, para processar os alimentos e ampliar a produção. No espaço atual, são descascados e embalados alimentos como mandioca, abóbora e palmito, e higienizados o restante dos outros produtos que chegam das hortas das famílias. Também são produzidas geleias e polpas de frutas. “A produtividade está aumentado e é natural que isso acontece: as famílias vão ganhando mais experiência na técnica, o mercado vai se abrindo para a produção da agroecologia e as agroflorestas começam a se recuperar e a crescer espécies novas”.

Paraná é destaque na produção de orgânicos

De acordo com dados do Ministério da Agricultura e Abastecimento, o Paraná é o estado com maior número de propriedades rurais orgânicas certificadas, com mais de duas mil unidades.

Parte dos alimentos orgânicos produzidos no estado são comercializados pela Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná (CCA-PR), que centraliza 17 cooperativas regionais e a produção de mais de 20 mil famílias nos 311 assentamentos paranaenses da reforma agrária. Os alimentos chegam até os consumidores de diversas formas e neste mês a CCA-PR lançou um site que facilita ainda mais a compra dos produtos para quem mora na capital Curitiba. 

“O Paraná reúne experiências de bastante tempo na agroecologia e um exemplo disso é a Jornada de Agroecologia que já está em sua 16ª edição”, lembra Katya Isaguirre, se referindo a um dos maiores eventos nacionais de incentivo à agroecologia que aconteceu no final de setembro, na cidade da Lapa. “O trabalho da Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (Aopa) é outro exemplo porque reúne grupos de agricultores familiares de Curitiba e região metropolitana para acessar programas como o PAA e PNAE e fazer vendas diretas e nas feiras”, completa.
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LULA X BOLSONARO: O dilema da direita

Por Paulo Franco

Por definição ideológica, a esquerda está com Lula e a direita ultra conservadora está com Bolsonaro.  E nesse vácuo, a direita mais light vai ficar com qual opção?


A cada dia que passa, mais vai se consolidando quais os candidatos que se enfrentação no segundo turno das eleições de 2018.  Do lado da esquerda, temos o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, do PT (Partido dos Trabalhadores) e do lado da direita, temos o  deputado federal, Jair Messias Bolsonaro. 

LULA


Imagem relacionada

Lula, como todos já sabemos é um legítimo representante da classe trabalhadora, tem sua trajetória baseada no sindicalismo, fundamentalmente defendendo a livre negociação entre patrões e empregados, via sindicato, sem a tutela do estado.

As bandeiras que o PT e Lula defendem são a diminuição das injustiças sociais, a queda das desigualdade, a inclusão social, tendo como principal instrumento de suporte à essas políticas, o crescimento econômico e a geração de empregos.  

Por enquanto Lula e o PT não defendeu outros instrumentos fundamentais para corrigir a concentração de rendas do país (uma das maiores do mundo, senão a maior), como por exemplo a tributação. 

BOLSONARO


Bolsonaro marca presença na manifestação aqui em Copacabana. Gostem ou não, uma coisa é certa: não tem medo de povo.

Bolsonaro, como também é do conhecimento de todos, é representante das idéias militares do golpe de 1964 e da consequente ditadura.  Defende políticas mais radicais no campo político, econômico,  social, ambiental, étnico e religioso. Sua postura enérgica, inflexível e radical gerou frase famosas e impactantes, tais como: 

  • Se eu fosse eleito, eu daria um golpe de estado hoje mesmo. 
  • A Democracia não resolve nada. 
  • Sou a favor da tortura. 
  • A ditadura não matou nada, só uns 300, todos bandidos, mercenários, ladrões, vagabundos. 
  • Um erro da ditadura foi torturar e não matar. 
  • Para consertar o Brasil, seria preciso matar uns 30.000 a começar com FHC.  Vai morrer inocentes, mas tudo bem. 
  • Se eleito, vou dar carta branca para a polícia matar. 
  • Se eleito, todo brasileiro poderá ter seu fuzil. 
  • A sociedade brasileira não gosta de homossexual. 
  • Refugiados do Haiti e da Síria são a escória do mundo. 
  • Ela não merece ser estuprada, é muito ruim, muito feia.
  • Os negros dos quilombolas não servem nem para procriar. 
  • Se eleito, vou acabar com todas as reservas indígenas. 

Bolsonaro, por outro lado, defende uma política quase que antagônica à do PT.  Para ele quanto maiores as vantagens e benefícios aos empresários e as empresas, maior o benefício para a sociedade.  

Ele acredita nisso, mesmo adotando medidas que diretamente afetam prejudiquem o trabalhador e as classes sociais mais baixas, mais vulneráveis.  Medidas como, por exemplo, a retirada de direitos trabalhistas, a liberação para terceirização de forma ampla e total, o fim dos reajustes do salário mínimo e também de aposentadorias.  

Defende também, o aumento das dificuldades para a aposentadoria e diminuição do valor do beneficio com o objetivo de diminuir as despesas da Previdência, o fim do sindicalismo como instrumento de luta dos trabalhadores por gerar baderna e prejudicar as empresas e a economia.

O DILEMA


Dois segmentos da sociedade tem posições definidas por uma questão ideológica, que são as seguintes: a esquerda apoia Lula, de forma definida e sem chance de mudança.  A extrema direita, a mais conservadora apoia Bolsonaro, de forma taxativa e definitiva. 

A dúvida está justamente naquela parte da sociedade que tem um posicionamento ideológico e político entre os dois segmentos acima.   

 Para esse segmento intermediário, apoiar Lula seria motivada por uma gestão eficiente, com um histórico positivo no Brasil e no exterior, com uma política nitidamente desenvolvimentista, cuja essência é a geração de empregos e inclusão social e diminuição da concentração de rendas. 

O risco, no caso, é mais subjetivo e não menos importante: abrir espaço para o avanço de agendas progressistas, considerado um avanço da esquerda, colocando em risco a os benefícios e privilégios proporcionados pela secular hegemonia e supremacia da elite burguesa. 

No outro lado da balança, apoiar Bolsonaro significaria, ao contrario do risco de avanço da esquerda com suas consequências já descritas, mas a vantagem de, não só conter, mas reprimir e retroceder o avanço da esquerda e as bandeiras progressistas garantindo a manutenção do "status quo". 

O risco envolvido nessa opção é, num primeiro momento, o baixo conhecimento e a inexistência de experiência em gestão de Bolsonaro.  Num segundo momento, e mais grave, é sua postura extremamente radical, tanto no campo ideológico quanto no comportamento intransigente e agressivo.   

Sua eleição poderia agravar a crise institucional, aumentando o risco de uma intervenção militar com a consequente implantação de uma ditadura militar por prazo indefinido (ou definido, mas sem garantia de cumprimento).  As consequências tanto econômicas, como políticas e sociais seriam imprevisíveis.  E se tem uma coisa que empresário odeia é incerteza.

CONCLUSÃO


Portanto, a direita moderada e liberal  está numa "sinuca de bico": Lula ou Bolsonaro? 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

NÃO! Não foi num museu


Mãe de gêmeas de 11 anos encontradas nuas em quarto com idoso diz que conheceu o homem na igreja. "Ele era de confiança, evangélico e ajudava a família"

Um idoso de 65 anos foi preso depois de ter sido flagrado de cuecas em um quarto com duas meninas gêmeas de 11 anos em Santa Isabel (SP).

Segundo a polícia, uma delas estava nua e a outra vestia apenas uma calcinha. Ao ser questionado pelos policiais, ele negou ter cometido qualquer crime. O Conselho Tutelar foi acionado e dois conselheiros compareceram ao local.

O caso foi registrado como estupro de vulnerável. De acordo com o boletim de ocorrência, a Polícia Militar chegou até o local por causa de uma denúncia anônima. Os policiais chegaram à casa por volta das 21h30 de sábado e encontraram o portão aberto.

Os policiais entraram no imóvel e ouviram um barulho que vinha de um quarto nos fundos da casa. Por uma fresta da janela do cômodo, viram o idoso, que é motorista, de cuecas. Uma das meninas estava totalmente nua e a outra de calcinhas.

Os policiais disseram que, quando entraram, o motorista tentou vestir um shorts. Uma das meninas tentou se esconder embaixo da cama e a outra já estava vestida.

Segundo o boletim de ocorrência, na televisão do quarto passava um desenho infantil e no local tinha alimentos, como gelatina, bolachas e iogurte.

Mãe

Em depoimento à polícia, a mãe das gêmeas de 11 anos disse que conheceu o homem que estava com suas filhas na igreja.


“A mãe alegou que não sabia de nada e que confiava nesse senhor, que se mostrava bom e ajudava a família. Ela disse ainda que ele era evangélico e ajudava a família com cestas básicas. Segundo a mãe, as filhas nunca relataram nada sobre abuso”, explicou o delegado Carlos Alberto Oliveira, responsável pelo caso.

Além da mãe, o padrasto e o irmão das meninas também foram ouvidos.

O delegado completou que, no depoimento, a mãe admitiu que sempre liberava as meninas para o homem, que prometia que as levaria à igreja.

O delegado vai investigar se as alegações da mãe têm fundamento. Ele afirmou ainda que tem mais alguns dias para tentar ouvir outras testemunhas.

Uma delas já havia dito à polícia que o suspeito dava mantimentos à família e que atraía as crianças com doces.

Lei


De acordo com a lei, a proteção da dignidade sexual está divida entre as vítimas maiores e menores de 14 anos. O menor de 14 anos tem uma proteção especial da lei brasileira em casos de estupro e por isso estão inseridos na categoria de vulneráveis.

Com essa idade, é proibida qualquer conduta sexual, com ou sem consentimento. A lei também protege quem não pode oferecer resistência ao estupro, seja por possuir deficiência mental ou por estar em uma situação vulnerável, como sob o efeito de drogas por exemplo.
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FONTE: Pragmatismo Político

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

1500, o ano que não terminou

Por Eliane Brum 

Quem chorou por Vitor, o bebê indígena assassinado com uma lâmina enfiada no pescoço?

Postado com o provocativo título: "ATIVIDADE PARA COLORIR - pinte a criança morta."

Um menino de dois anos foi assassinado. Um homem afagou seu rosto. E enfiou uma lâmina no seu pescoço. O bebê era um índio do povo Kaingang. Seu nome era Vitor Pinto. Sua família, como outras da aldeia onde ele vivia, havia chegado à cidade para vender artesanato pouco antes do Natal. Ficariam até o Carnaval. Abrigavam-se na estação rodoviária de Imbituba, no litoral de Santa Catarina. Era lá que sua mãe o alimentava quando um homem perfurou sua garganta. Era meio-dia de 30 de dezembro. O ano de 2015 estava bem perto do fim.

E o Brasil não parou para chorar o assassinato de uma criança de dois anos. Os sinos não dobraram por Vitor.

Sua morte sequer virou destaque na imprensa nacional. Se fosse meu filho, ou de qualquer mulher branca de classe média, assassinado nessas circunstâncias, haveria manchetes, haveria especialistas analisando a violência, haveria choro e haveria solidariedade. E talvez houvesse até velas e flores no chão da estação rodoviária, como existiu para as vítimas de terrorismo em Paris. Mas Vitor era um índio. Um bebê, mas indígena. Pequeno, mas indígena. Vítima, mas indígena. Assassinado, mas indígena. Perfurado, mas indígena. Esse “mas” é o assassino oculto. Esse “mas” é serial killer.

A fotografia que ilustrou as poucas notícias sobre a morte do curumim mostra o chão de cascalho e concreto da estação rodoviária. Um par de sandálias havaianas azul, com motivos infantis. Uma garrafa pet, uma estrelinha de brinquedo, daquelas de fazer molde na areia, uma tampa de plástico do que parece ser um baldinho de criança, uma pequena embalagem em formato de tubo, um pano florido amontoado junto à parede, talvez um lençol. É apresentada como “local do crime” ou como “os pertences do menino”.

Os índios precisam ser falsos porque suas terras são verdadeiras – e ricas
 

Essa foto é um documento histórico. Tanto pelo que nela está quanto pelo que nela não está. Nela permanece o descartável, os objetos de plástico e de pet, os chinelos restados. Nela não está aquele que foi apagado da vida. A ausência é o elemento principal do retrato.

Os indígenas só podem existir no Brasil como gravura. Apreciados como ilustração de um passado superado, os primeiros habitantes dessa terra, com sua nudez e seus cocares, uma coisa bonita para se pendurar em algumas paredes ou estampar aqueles livros que decoram mesas de centro. Os indígenas têm lugar se estiverem empalhados, ainda que em quadros. No presente, sua persistência em existir é considerada inconveniente, de mau gosto. Há vários projetos tramitando no Congresso para escancarar suas terras para a exploração e o “progresso”. Há muitos territórios indígenas devidamente reconhecidos que o governo de Dilma Rousseff (PT) não homologa porque neles quer construir grandes obras ou porque teme ferir os interesses do agronegócio. Há uma Fundação Nacional do Índio (Funai) em progressivo desmonte, tão fragilizada que com frequência se revela também indecente. No passado, os índios são. No presente, não podem ser.

Como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, os indígenas são especialistas em fim de mundo, já que o mundo deles acabou em 1500. Tiveram, porém, o desplante de sobreviver ao apocalipse promovido pelos deuses europeus. Ainda que centenas de milhares tenham sido exterminados, sobreviveram à extinção total. E porque sobreviveram continuam sendo mortos. Quando não se consegue matá-los, a estratégia é convertê-los em pobres nas periferias das cidades. Quando se tornam pobres urbanos, chamam-nos de “índios falsos”. Ou “paraguaios”, em mais um preconceito com o país vizinho. No passado, os índios são alegoria. “Olha, meu filho, como eram valentes os primeiros habitantes desta terra.” No presente, são “entraves ao desenvolvimento”. “Olha, meu filho, como são feios, sujos e preguiçosos esses índios fajutos.” Os índios precisam ser falsos porque suas terras são verdadeiras – e ricas.

A morte dos curumins não muda nenhuma política, as fotos de sua ausência não comovem milhões

Se Vitor era um entrave, esse entrave foi removido. Por isso essa foto é um documento histórico. Se houvesse alguma honestidade, é ela que deveria estar nas paredes.

Parece não bastar que Vitor, um bebê de dois anos, passasse semanas no chão de uma rodoviária porque a violência contra seu povo foi tanta e por tantos séculos e ainda hoje continua que seus pais, Sônia e Arcelino, precisam deixar a aldeia para vender artesanato. A preços baixos, porque desvalorizados são os artesãos. É importante perceber o nível de desamparo que leva alguém a considerar rodoviária um lugar seguro e acolhedor. Terminais rodoviários são locais de passagem, e a família de Vitor, assim como a de outros indígenas, abriga-se lá porque há movimento. Rodoviária é lugar de ninguém. E por isso nela costumam caber os mendigos, os meninos de rua, os bêbados, as putas, os loucos, os párias. E os índios. Ou cabiam. E já não cabem mais.

Rodoviárias são espaços de circulação de estranhos, e por serem “os outros”, os estrangeiros nativos, os indígenas acreditam que neste não lugar têm chance de escapar da expulsão. Mas seguidamente são expulsos. Parte da população dos municípios em que os indígenas aparecem com seu artesanato acha que a rodoviária é boa demais pra índio. Ou pra “bugre”, como são chamados em algumas regiões do sul do país. “A rodoviária é o cartão postal da cidade, período que tem tanta gente viajando, chegando. Que imagem vão levar da cidade?”, justificou um comerciante de São Miguel do Oeste, também em Santa Catarina, para justificar a expulsão dos indígenas do local antes do Natal.

Vitor já não estraga nenhum cartão postal. Dele não há nem mesmo um rosto. A foto de sua ausência não comoverá milhões pelo planeta como aconteceu com o menino sírio trazido pelas ondas do mar. A morte dos curumins não muda nenhuma política.

Antes que me acusem de precipitação, exagero ou injustiça, é preciso dizer: os “cidadãos de bem” não querem que crianças indígenas tenham seus pescoços perfurados. De jeito nenhum. Apenas que elas fiquem longe da vista. Em outro lugar em que não contaminem, sujem ou enfeiem. Mas também não nas suas terras, se estas forem ricas em minérios, férteis pra soja ou boa pra gado pastar. Aí também é abuso. Desapareçam, apenas. Mas matar, não, matar é maldade.

2015 foi o ano em que esse discurso deu ao Brasil o bicampeonato. O deputado estadual Fernando Furtado, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi reconhecido como “Racista do Ano” pela organização Survival International por seu pronunciamento antológico, ao se manifestar numa audiência pública: “Lá em Brasília, o Arnaldo viu os índios tudo de camisetinha, tudo arrumadinho, com flechinha, tudo um bando de viadinho, que tinha uns três que eram viado, que eu tenho certeza, viado. Eu não sabia que tinha índio viado, fui saber naquele dia em Brasília... Tudo viado. Então é desse jeito que tá, como é que índio já consegue ser viado, boiola, e não consegue trabalhar e produzir? Negativo!”.

Para parte dos moradores de cidades da região sul, os indígenas “sujam” o cartão postal


O parlamentar se referia aos Awá-Guajá, considerados um dos povos mais vulneráveis do planeta. A conquista de Fernando Furtado, porém, não é inédita. Outro parlamentar, Luis Carlos Heinze, este deputado federal pelo Partido Progressista (PP) do Rio Grande do Sul, já tinha subido ao pódio em 2014, com a seguinte declaração: “O governo... está aninhado com quilombolas, índios, gays e lésbicas, tudo o que não presta”. Tudo indica que o Brasil é quase imbatível para o tricampeonato. Fala-se tanto em país polarizado, mas a premiação prova que os indígenas são um raro ponto de unanimidade entre certa direita e certa esquerda dessa grande nação.

Vitor, o bebê assassinado, vivia na aldeia Condá, no município de Chapecó, no oeste de Santa Catarina. Os crimes cometidos pelo Estado contra o povo Kaingang da região sul do Brasil estão registrados no Relatório Figueiredo, um documento histórico que se acreditava perdido e que foi descoberto no final de 2012. O relatório, datado de 1968, documentou o tratamento dado aos povos indígenas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). No total, o procurador Jáder Figueiredo Correia dedicou 7.000 páginas para contar o que sua equipe viu e ouviu. Quem quiser compreender por que Vitor se abrigava no chão da rodoviária de Imbituba em vez de passar os meses de verão seguro, saudável e feliz na sua aldeia, tem uma rica fonte de informações no documento disponível na internet. Vai descobrir, entre outras atrocidades, como antepassados de Vitor chegaram a ser torturados e a viver em condições análogas à escravidão para que suas terras fossem desmatadas e exploradas pelos não índios, em pleno século 20. É possível que alguns destes “empreendedores” sejam avós daqueles que hoje acham que indígenas como Vitor sujam o cartão postal de suas cidades.

Começamos 2016 como acabamos 2015: obscenos. Os fogos do Ano-Novo já fracassam no artifício


Depois do assassinato do bebê, a Polícia Militar prendeu o suspeito de sempre. Um rapaz pobre, em liberdade provisória, com “uma pequena quantidade de maconha e cocaína na mochila”. Como não havia nenhum indício contra ele, foi liberado. Em seguida, foi preso outro jovem, hoje considerado o principal suspeito. A polícia procurava alguém bastante genérico: com mochila e boné e tipo físico semelhante ao que aparece num vídeo gravado por uma câmera de segurança. A suspeita de policiais militares é de que o assassino estaria “incomodado com a presença dos indígenas no local”. A Polícia Civil mencionou como possíveis motivações “preconceito”, “surto” e “problemas psicológicos”. Em nota, o CIMI afirmou: “O Conselho Indigenista Missionário manifesta preocupação com o clima de intolerância que se propaga, na região sul do país, contra os povos indígenas. Um racismo – às vezes velado, às vezes explícito – é difundido através de meios de comunicação de massa e em redes sociais”.

Quem de fato assassinou Vitor talvez seja investigado, julgado, condenado e punido, o que já é uma raridade em mortes de indígenas no Brasil, marcadas pela impunidade. Mas é preciso fazer perguntas mais complicadas. Quem armou essa mão? Que encruzilhada histórica permitiu que Vitor fosse o bebê escolhido pelo assassino, independentemente de sua sanidade ou insanidade – e não o meu filho ou o seu? Onde estamos nós nesta foto em que estamos sem estar?

Tem se dito que 2015, um ano de crise no Brasil e horror em todas as partes, é o ano que não terminou. 2016 seria apenas um looping. Faz sentido. Na véspera deste Natal, Antônio Isídio Pereira da Silva, líder rural e ambientalista no Maranhão, foi encontrado morto. Era mais um assassinato anunciado. Há um ano foi arquivado o pedido de inclusão do agricultor no programa federal de proteção aos defensores de direitos humanos. Ele se preparava para denunciar mais um desmatamento ilegal numa região com graves conflitos de terra quando foi assassinado. Também no Natal, cinco jovens denunciaram policiais militares do Rio por tortura e roubo. Segundo seu relato, eles voltavam em três motos de uma festa quando foram detidos por PMs da Unidade de Polícia Pacificadora de Coroa, Fallet e Fogueteiro. Além de torturas com faca quente, isqueiro e socos, um deles teria sido obrigado a fazer sexo oral no amigo. Em São Paulo, levou apenas dois dias para ocorrer a primeira chacina de 2016, com quatro mortos na periferia de Guarulhos. Suspeita-se de vingança pela morte de um PM dias antes na região.

Começamos como acabamos. Nada, portanto, nem começou nem acabou. Quem continua morrendo de assassinato no Brasil, em sua maioria, são os negros, os pobres e os índios. O genocídio segue diante da indiferença, quando não aplauso, do que se chama de sociedade brasileira. Começamos 2016 como acabamos 2015. Obscenos. Os fogos do Ano-Novo já fracassam no artifício. Estamos nus. E nossa imagem é horrenda. Ela suja de sangue o pequeno corpo de Vitor por quem tão poucos choraram.

O vídeo abaixo é um cântico guarani, cantado por um coral de crianças com menos de 10 anos de idade de 4 aldeis guaranis.
"O cântico das crianças é sempre ouvido primeiro pelo Criador, pois elas são a própria pureza. Os mais velhos guaranis ensinavam as crianças a cantar e explicavam qual a importância, o significado daquele cântico."


Dizem que 2015 é o ano que não acaba. 
Ou que 2013 é que não chega ao fim.

Para os indígenas é muito mais brutal: 
o ano de 1500 ainda não terminou.
___________________
FONTE: El País
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

12 fantásticos artistas que seriam condenados pelo moralismo do MBL

Por Jorge Caronte
Tudo o que você precisa saber sobre a polêmica do Queermuseu mais uma galeria de obras "degeneradas" de grandes artistas que provocaria escândalo entre os reacionários brasileiros.

Iniciada no dia 16 agosto, em Porto Alegre (RS), e promovida pelo Santander Cultural, a “Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” era para ser mais uma exposição de temática LGBTT, como tantas outras que ocorrem em diversas partes do mundo, como a “Queer British Art 1861–1967” no Tate, o museu nacional de arte moderna do Reino Unido em Londres, ou as que ocorrem no Leslie-Lohman, museu LGBTT em Nova Iorque.

Tratava-se da primeira exposição de temática Queer no Brasil, na qual o público poderia conferir obras de coleções públicas e particulares que abordam questões de diversidade de gênero no contexto de uma sociedade hierárquica e heteronormativa como a brasileira, compreendendo um período que vai desde o século XX até os dias atuais, mas dispostas em ordem acrônica para possibilitar o diálogo entre obras de períodos diferentes. A mostra é composta por variadas formas de expressão artística como pintura, escultura, cerâmica, serigrafia, colagem, fotografia e vídeo, de autoria de 85 artistas brasileiros, entre eles alguns conhecidos do grande público como Pedro Américo, Di Cavalcanti, Cândido Portinari e Alfredo Volpi.[1]

A exposição seguia normalmente, até que, no sábado, dia 9, foi publicado na página “Terça Livre” no Facebook um vídeo de autoria de Felipe Diehl no qual ele “denuncia” obras que, segundo sua interpretação, estavam “escarnecendo de Cristo” e “incentivando a pedofilia, a putaria, a sacanagem e até a zoofilia”, sem em nenhum momento procurar contextualizar as obras e parecendo que estava numa exposição de arte sacra que havia sido maculada, e não sobre uma que tratava de sexualidade e questões LGBTT. A provocação estética em algumas obras não era gratuita e suscitavam uma reflexão legítima sobre como a sociedade brasileira manifesta sua sexualidade. A divulgação do vídeo foi amplificada pela página do Movimento Brasil Livre (MBL), que possui mais de 2 milhões de seguidores, e rapidamente o vídeo viralizou pelo Facebook, tendo mais de 30 mil compartilhamentos até o momento.

Dado que apenas 8% da população brasileira em idade de trabalhar sabe contextualizar e se expressar corretamente por meio da escrita[2] e que apenas 8% já foi numa exposição de arte[3], não é de se estranhar que a “denúncia” provocou indignação, principalmente em grupos de direita, que iniciaram uma campanha intimidatória em que constrangiam os visitantes da exposição ao mesmo tempo que exigiam do Santander o encerramento do Queermuseu, sendo o MBL o principal agitador dessa onda de intolerância. No agressivo vídeo de Diehl chega-se a pedir a prisão de Gaudêncio Fidelis, o curador da exposição.

Diante da repercussão negativa, no domingo, dia 10, o banco Santander se manifestou em seu perfil do Facebook dizendo que “(…) algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana”.

No mesmo dia, a exposição que tratava sobre sexualidade, diversidade de gênero e relações de poder foi suspensa. Desta forma, o banco cedeu à pressão de grupos conservadores que, entre mais de 270 obras, encontraram pretextos em apenas algumas delas, por volta de 5, para acusar toda a exposição de desrespeito aos cristãos e de apologia à pedofilia e à zoofilia.

Esta data ficará marcada na história da cultura brasileira como um grande retrocesso, já que, desde os tempos da ditadura civil-militar — como a invasão feita por mais de 100 integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) no teatro Galpão em 1968, na cidade de São Paulo, durante a apresentação da Roda Viva de Chico Buarque, o que resultou no espancamento de artistas e destruição do cenário da peça[4] —, não vemos uma tentativa tão agressiva de censura de manifestações artísticas, cujos autores cinicamente definiram como “boicote”.

Mas quais obras são essas que provocaram tanta revolta nas pessoas que querem ditar o que é arte? Suas críticas procedem?

As obras polêmicas do QueerMuseu, seu real significado e como elas expuseram a ignorância, a hipocrisia, os preconceitos e a desonestidade de seus críticos



“Pornografia” numa exposição que trata de sexualidade não pode, mas segurar um falo gigante para fugir do fact-checking pode?
Para prosseguirmos, é imprescindível falarmos um pouco sobre as obras “polêmicas” apontadas pelos conservadores e que provocaram tanto alvoroço. Consultados pela imprensa, os próprios autores dessas obras já as explicaram, invalidando totalmente a interpretação preguiçosa e maldosa daqueles que as acusaram de criminosas ou de incentivo à pedofilia e à zoofilia.

Sobre a acusação de profanação criminosa

Comecemos pela tela Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva, pintada por Fernando Baril em 1996. Segundo os conservadores, a pintura é uma profanação que configura crime, conforme previsto no artigo 208 do Código Penal:
“Art. 208 – Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.Parágrafo único – Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.”[5]
Ora, ninguém foi escarnecido publicamente por motivo de crença ou religião, porque se tratava de uma exposição feita num espaço privado, de propriedade de um banco. Tampouco houve interrupção de alguma prática religiosa ou vilipêndio de objeto religioso, pois se tratava de uma exposição de arte, não de uma igreja. Quem de fato apresentou tal comportamento foram os críticos, que entraram numa exposição de arte para tumultuar, intimidar e gravar um vídeo fazendo acusações indevidas que viralizou na internet e motivou o Santander a encerrar a exposição! Ou seja, se houve alguma interrupção foi do próprio Queermuseu e por aqueles que querem criminalizá-lo.

“Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva”
No Brasil, quem tem costume de escarnecer publicamente dos outros por sua crença ou religião, interromper prática religiosa ou vilipendiar ato ou objeto religioso, com casos que chegam a provocar morte, são os próprios religiosos e os conservadores, que integraram a maior parte daqueles que exigiram o encerramento do Queermuseu nas redes sociais. Exagero? Invencionice? Mentira? Então lembremos de alguns casos recentes amplamente divulgados pela mídia, como a da menina de 11 anos que foi apedrejada por evangélicos quando saía de um culto de Umbanda.[6] Temos um exemplo de escárnio público do próximo por conta de sua religião, o qual ainda terminou num ato bárbaro. Ou das constantes depredações de terreiros ocorridas este ano em Nova Iguaçu, no Rio, inclusive de objetos religiosos[7], isso quando não botam fogo em templos, como ocorreu no ano passado[8]. Opa, parece que temos vários casos de vilipêndio de atos ou objetos religiosos aqui. E pasme: na maioria desses casos, a polícia se recusou a registrar como infração do artigo 208 do Código Penal, o que nos faz acreditar que a própria “justiça” é conveniente com abusos praticados contra grupos religiosos minoritários, principalmente quando se trata de religiões de matriz africana. A existência desse tipo de arbitrariedade na nossa “justiça” nos faz perguntar se de fato existe um Estado laico no Brasil.

Voltando à obra, ela sequer é uma provocação aos religiosos, mas uma crítica ao consumismo no Ocidente. O próprio artista fez uma declaração para o Jornal Zero Hora sobre a polêmica que envolve sua pintura:
“Aquele quadro tem 21 anos. Era uma semana santa, e eu estava lendo sobre as santas indianas, então resolvi fazer uma cruza entre Jesus Cristo e a deusa Shiva. Deu aquele montaréu de braços carregando só as porcarias que o Ocidente e a Igreja nos oferecem. Certa vez, Matisse fez uma exposição em Paris e, na mostra, tinha uma pintura de uma mulher completamente verde. Uma dama da sociedade parisiense disse “desculpe, senhor Matisse, mas nunca vi uma mulher verde”, ao que Matisse respondeu que aquilo não era uma mulher verde, mas uma pintura. Aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser.”[9]

Sobre a acusação de incentivo à zoofilia


O quadro “Cenas de interior II”
de Adriana Varejão.
Agora sobre as acusações de zoofilia. A pintura a óleo Cenas de interior II de Adriana Varejão, feita em 1994, é inspirada pelo estilo shunga das gravuras eróticas japonesas (sobre a qual voltaremos a falar mais um pouco adiante). Foi uma das obras mais atacadas pelos conservadores fundamentalistas, sobretudo por retratar um ato zoofílico, o que, para eles, é uma defesa dessa parafilia. De acordo com a autora da obra, a intenção foi expor práticas que ocorrem, mas na maioria das Diante da repercussão dessa mentira, o jornal O Globo procurou Alvaro Clark, filho de Lygia Clark e presidente da Associação Cultural O Mundo de Lygia, para falar a respeito: 

“Essa informação é um engano, porque o macacão é de tamanho grande, impossível de uma criança vestir. Também não há toque nas genitálias e o contato, quando um zíper é aberto, é feito em cima de plástico, borracha ou pelos colados, e não diretamente na pele”[17], esclareceu Alvaro. 

Também é possível assistir a um casal fazendo essa experiência com as mesmas roupas que foram apenas expostas no Queermuseu (não era possível aos visitantes vesti-las) em vídeo postado no Youtube pelo Itaú Cultural. Com o vídeo podemos constatar que: de fato são roupas feitas e unicamente para o uso de adultos; a experiência não possui conotação sexual; não existe abertura alguma nas genitálias; não há possibilidade de toque direto.vezes às escondidas: 
“A pintura é uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as Chungas, clássicas imagens eróticas da arte popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil. O trabalho não visa julgar essas práticas.”[10
E será que se trata de mais uma invencionice? A artista estaria mentindo ao expor a zoofilia como uma prática recorrente, mas escondida e ignorada? O próprio conservador Jair Bolsonaro, o mesmo que defendeu abertamente o fuzilamento dos autores da exposição Queermuseu, não a deixa mentir. Em março de 2012, no quadro “Sem Saída” do programa CQC, Bolsonaro fala rindo e com naturalidade sobre zoofilia, inclusive confessando já ter praticado sexo com galinhas: “Todo mundo ia atrás de galinha no galinheiro na minha cidade. Alguns mais malandros, iam atrás da bezerrinha, da jumentinha. Era comum. Não tinha mulher como tem hoje.”[11

No programa Pânico na TV em 2008, o “Mendigo” pergunta para Maguila se ele “barranqueava” (gíria do interior que significa fazer sexo com animais) muito quando mais novo. Maguila confirma dizendo que iniciou sua vida sexual com éguas. Disse isso entre Emílio Surita, Mendigo, Bola, Sabrina Sato, Carioca e ninguém se indignou, pelo contrário, todos riram, todos acharam graça. O cantor Leonardo, por sua vez, numa entrevista à revista Sexy em 2010, disse que iniciou sua vida sexual com cabritas.[12

No Brasil, a prática de zoofilia em zona rural infelizmente é comum, inclusive tendo um estudo a respeito do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. Segundo o estudo, de 4 a cada 10 homens de zonas rurais já fizeram sexo com animais e conclui que tal prática pode dobrar o risco de desenvolver câncer no pênis.[13

O fato é que a zoofilia é muito mais comum do que imaginamos, além de ser uma prática antiga, citado inclusive na Bíblia.[14] Existe um mercado de filmes pornográficos que explora a zoofilia, ou seja, existe uma demanda na sociedade a ponto de viabilizar a produção desses filmes. Numa rápida pesquisa no Google podemos conferir que existem milhares de vídeos a respeito, a maioria deles apresentando sexo entre mulheres e animais, indicando que são assistidos majoritariamente por homens. 

O quadro de Adriana Varejão apenas expõe esse problema, justamente para que passe a ser reconhecido como tal, ou será que é melhor a zoofilia continuar a ser tratada na base de piadinhas, para que questões como direitos dos animais, a exploração e humilhação da mulher e os maus tratos e abusos sofridos pelos animais nos filmes pornográficos de zoofilia e as implicações dessa prática na saúde pública jamais sejam discutidas, analisadas e devidamente enfrentadas? 

Regresso de um proprietário, de Jean-Baptiste Debret, 1834-1839. Para os críticos do Queermuseu retratar a opressão é racismo.
Ainda sobre Cenas de interior II, os críticos também destacaram a parte que mostra o sexo entre dois homens brancos e um negro, este apresentando um papel submisso no ato. Isso também serviu de pretexto para que acusassem o movimento negro e a esquerda de hipócritas, pois, segundo eles, era um caso de racismo. 

O misterioso caso do homem de QI 170,
mas que não entende arte e age
como uma criança da quinta série.
Ora, de fato se trata de racismo, mas ignoraram o contexto da exposição e da obra, a qual, no caso, trata da hipocrisia (sexo homossexual às escondidas) e das relações de poder no Brasil colônia, ou seja, trata-se na verdade de uma denúncia sobre opressão. 

Em entrevista sobre esse episódio para #AgoraÉQueSãoElas, na Folha, Varejão explica que “devemos sempre lembrar que arte habita no campo da representação”, então, “nesse sentido, a arte deve ter liberdade total, e não pode sofrer qualquer tipo de censura.”[15] Porém, tantos esclarecimentos sobre o que de fato sua obra expressa não foram compreendidos pelo senhor Roger do Ultraje, conhecido por ter 172 de QI. 

Roger conseguiu a proeza de tornar ainda mais deprimente a reação conservadora à pintura de Varejão, postando uma imagem em seu Twitterna qual desenhou um pênis sobre uma foto da artista. Cai o suposto “gênio”, surge no lugar um adulto com idade mental de 10 anos.

Sobre as acusações de incentivo à pedofilia 

Por fim, sobre as acusações de incentivo à pedofilia, que tiveram como como alvo duas obras da exposição. 

O Eu e o Tu (1967)
A primeira delas, O Eu e o Tu: série Corpo-Roupa-Corpo de Lígia Clark, trata-se de uma experimentação voltada para casais, homem e mulher, adultos (atentem para essa informação), por meio de roupas feitas de borracha industrial, as quais cobrem todo o corpo, ficando expostos apenas as mãos e a parte inferior do rosto. Cada roupa possui 6 aberturas fechadas com zíper, cada qual contendo diferentes materiais formando o “bolso”, ou seja, não há um contato direto. 

“(…) em O Eu e o Tu: Série Roupa-Corpo-Roupa (1967), um casal veste roupas confeccionadas pela artista, cujo forro comporta materiais diversos. Aberturas na roupa proporcionam, pela exploração táctil, uma sensação feminina ao homem e à mulher uma sensação masculina.”[16

Contudo, baseando-se num texto do “Reaçablog” que induz se tratar de roupas para crianças, Carlos Bolsonaro afirmou em seu Twitter, com a clara intenção de inflamar ainda mais os fundamentalistas, que na exposição crianças chegaram a usar as roupas para se tocarem em suas genitálias. Assim, essa distorção canalha da obra se tornou mais um fato inquestionável para a turba conservadora exigir o encerramento do Queermuseu. 

Carlos Bolsonaro inflamando os conservadores
com uma mentira no Twitter.
Diante da repercussão dessa mentira, o jornal O Globo procurou Alvaro Clark, filho de Lygia Clark e presidente da Associação Cultural O Mundo de Lygia, para falar a respeito: 

“Essa informação é um engano, porque o macacão é de tamanho grande, impossível de uma criança vestir. Também não há toque nas genitálias e o contato, quando um zíper é aberto, é feito em cima de plástico, borracha ou pelos colados, e não diretamente na pele”[17], esclareceu Alvaro. 

Também é possível assistir a um casal fazendo essa experiência com as mesmas roupas que foram apenas expostas no Queermuseu (não era possível aos visitantes vesti-las) em vídeo postado no Youtube pelo Itaú Cultural. Com o vídeo podemos constatar que: de fato são roupas feitas e unicamente para o uso de adultos; a experiência não possui conotação sexual; não existe abertura alguma nas genitálias; não há possibilidade de toque direto. 

A outra obra acusada de fomentar a pedofilia, e considerada a mais polêmica, foi a da série Criança Viada, da artista cearense Bia Leite. Para compreendê-la corretamente é necessário antes conhecer sua inspiração, o Tumblr de mesmo nome, de autoria do jornalista Iran Giusti. Criado em 2012, a intenção do site era reunir fotos da infância de pessoas LGBT, devidamente autorizadas pelas mesmas para serem publicadas. Na época o Tumblr chamou a atenção, dividiu opiniões e incomodou, já que muita gente não aceita a ideia de que sim, a homossexualidade, assim como a heterossexualidade, pode se manifestar na infância, como mostravam as fotos das crianças que não apresentavam uma postura ou comportamento de acordo com o padrão pré-definido pela sociedade do que é ser menino e menina. 

“Travesti da Lambada e Deusa das Águas” (2012).
Devido à polêmica do QueerMuseu, o Tumblr Criança Viada foi reativado e o site voltou a publicar fotos de seguidores em sua infância e ficará online até o próximo dia 8, o mesmo dia em que se encerraria a exposição Queermuseu em Porto Alegre, caso não tivesse sido cancelada. O próprio Giusti voltou a falar sobre esse projeto, sobre as duas tentativas dos conservadores para derrubarem seu site, sobre o contato que teve com a artista Bia Leitão e demais esclarecimentos aqui. Endrigo Valadão, que foi uma das crianças que estão nas fotos do Tumblr, também se manifestou em defesa do projeto, da Bia Leitão e do Queermuseu por meio de um emocionante depoimento em seu perfil do Facebook: 
“EU FUI UMA CRIANÇA VIADA. 
Rosa era minha cor favorita. Eu não perdia Xuxa. Minha voz era bem fina e demorou pra engrossar. Fazia pose pra foto. Desajeitado pra futebol. Bonecas sempre foram pra mim muito mais interessantes que carrinhos. Enfim, coisas absolutamente pitorescas, não fossem o desconforto tremendo que causava na sociedade, nas professoras que não sabiam o que fazer (o fato de eu ser cdf me livrava um pouco a barra, mas né) ou nos amigos dos meus pais, que deviam fingir não perceber. 
NÃO. NÃO É PORNOGRAFIA. NÃO É PEDOFILIA. 
Mas é sim algo que ainda choca muito vocês: há crianças que sim são gays, viadíssimos, pintosíssimas, e que – se Deus quiser e Ele vai querer – encherão esse mundo de cor, de alegria e orgulho de ser quem se é.
Aprendam a lidar com isso. Colaborem para não tornar a vida dessas crianças um inferno.” 

Não sejamos hipócritas. Quase todo mundo teve um(a) coleguinha nos primeiros anos de escola assim, seja um menino afeminado ou uma menina masculinizada, e que muito provavelmente era alvo constante de bullying por conta disso, conforme o próprio Eduardo Valadão lembra em seu depoimento: 
“Mas aí veio o bullying. Qual gay que nunca ouviu inúmeros “viadinho”, “menininha”, “baitolinha” no recreio? Eu não conseguia entender de onde vinha essa raiva alheia. Justo eu, tão educado, me perguntava o que tava fazendo de errado ali? Mal sabia o que significava viado. Era eu parecido com o Bambi talvez?”. 
A maioria dos pais ensina os filhos a rejeitarem todos aqueles que desviam do padrão considerado normal de como as pessoas devem se comportar de acordo com seu gênero, e quem acaba sofrendo com isso são as crianças que não se encaixam nessa definição. E se enganam os que acreditam que apenas as crianças gays sofrem com isso, já que crianças heterossexuais que apresentam um comportamento desviante também acabam se tornando alvos de preconceitos. O Tumblr Criança Viada lembra que essas crianças existem, que não há nada de errado nelas em serem assim e que merecem ser tratadas com respeito, como qualquer outra criança. E essa também foi a intenção da artista Bia Leite ao retratar algumas das crianças que apareciam nesse Tumblr em seus quadros. Em texto enviado ao UOL ela comenta que: 
“A linguagem da pintura também nos insere na História com orgulho e força, diante de uma sociedade que nos quer invisíveis. Nós, LGBT, já fomos crianças. Esse assunto incomoda porque nós nunca viramos LGBT, nós sempre fomos. Todos nós devemos cuidar das crianças, não reprimir a identidade dela nem seu modo de ser no mundo, isso é muito grave.”[18
As frases usadas na obra “Travesti da Lambada e Deusa das Águas” também provocaram indignação, pois onde já se viu chamar uma criança de “Travesti da Lambada”? Mas qual é o demérito mesmo de alguém ser travesti, a não ser para aqueles que possuem preconceitos transfóbicos? É o caso do Felipe Diehl, a pessoa que iniciou toda essa onda de intolerância e estupidez. Em seu vídeo, um dos seus colegas aponta para a parte do quadro em que aparece uma criança vestida conforme o gênero que se identifica em direção à frase “criança viada travesti da lambada” e diz em tom recriminador que “isso aqui é praticamente prostituição infantil; nem mesmo um travesti (sic) vai concordar com essa imagem aqui”. Ora, associar travestismo com prostituição, achar que ser travesti é estar inevitavelmente condenada a se prostituir, logo a imagem incita à prostituição infantil, à pedofilia é o quê, a não ser uma clara manifestação de transfobia? Quais motivos racionais levam uma pessoa a fazer esse tipo de conclusão, a não ser uma visão extremamente preconceituosa dos travestis? 

Ao contrário do que Felipe Diehl e seus amigos pensam, ser travesti não condena ninguém à prostituição, quem condena é a sociedade, quando rejeita e discrimina aqueles que não se enquadram em padrões de gênero pré-definidos e, por essa razão, os marginaliza, exatamente como Felipe e seus amigos fizeram ao negarem a existência da “criança viada travesti da lambada” definindo-a como prostituição infantil e apologia à pedofilia. 

A marginalização das travestis é um problema social grave e que acontece em quase todo o mundo, tanto que é abordado e analisado por diversos estudos e pesquisas, entre eles a tese de doutorado de uma pessoa que sentiu na pele essa marginalização, Luma Andrade, a primeira travesti doutora do Brasil. Em sua tese “Travestis na escola: assujeitamento e resistência à ordem normativa”[19], Luma mostra que na própria escola, espaço onde deveria ser promovida a inclusão e a cidadania de todos, independentemente da sua identidade de gênero, o tratamento dispensado às travestis é discriminatório, punitivo, de não reconhecimento de sua existência: 
“A negação das travestis no espaço da sala de aula resulta no confinamento e na exclusão, que as transformam em desviantes e indesejadas. Quando isso ocorre no ambiente escolar, a pressão normalmente é tão intensa que impele as travestis a abandonar os estudos, sendo disseminada a ideia de que foi sua própria escolha. Esta justificativa tenta mascarar o fracasso da escola em lidar com as diferenças, camuflando o processo de evasão involuntária induzido pela escola.” 
Diante disso, fica mais fácil compreender a importância da obra mais criticada de Bia Leitão, a “Travesti da Lambada e Deusa das Águas”, assim como seu caráter catártico, o que apenas a engrandece, ao mesmo tempo que fica ainda mais escancarada a estupidez colossal daqueles que a condenaram e censuraram. 

No fundo, toda essa violência disfarçada de indignação contra o trabalho de Bia é uma tentativa de negar a existência das crianças gays; é o medo de ter, reconhecer e respeitar um filho gay, afinal, como o próprio Jair Bolsonaro admite (sempre ele no competente trabalho de mostrar a real face do conservadorismo) um pai prefere chegar em casa e ver um filho com o braço quebrado por estar jogando futebol do que brincando de boneca.” 

Sobre o “quadro do ursinho”

“O que Ted viu”, da artista britânica
Kim Noble, não é apologia à pedofilia
e não estava no Queermuseu.
Percebendo que as acusações contra o Queermuseu não se sustentavam fora do círculo conservador extremista devido aos esclarecimentos sobre as obras polêmicas tanto dos seus autores na mídia quanto das pessoas progressistas nas redes sociais, os reacionários começaram a inventar mentiras. A maior delas foi a do “quadro do ursinho” que os reacionários utilizaram para fazer mais uma acusação de apologia à pedofilia do Queermuseu. No entanto, o quadro da artista britânica Kim Noble O que Ted viu não estava na exposição.[20]

O que Ted viu de fato retrata um ato de pedofilia, mas, bem diferente do que os reacionários dizem, os quadros de Kim Noble são uma forma dela expressar os abusos que ela própria sofreu na infância. Ela não está fazendo apologia alguma, mas denunciando o abuso que sofreu e expondo sua dor. Noble possui múltiplas personalidades e por conta disso foi internada diversas vezes em hospitais psiquiátricos. O diagnóstico apenas veio quando ela estava com 34 anos: Noble sofre de transtorno dissociativo. Os médicos acreditam que isso também tenha relação com os abusos que ela sofreu.[21]Assim, mais uma vez, fica claro como os detratores do Queermuseu jogaram sujo.

Grandes artistas que seriam considerados “degenerados” pelos nossos conservadores

Pudemos conferir até aqui que as obras do Queermuseu não são nada complicadas de entender e muito menos são criminosas ou incitam a prática da pedofilia ou zoofilia. Mas o fato de terem sido encaradas como uma ameaça por tantos reacionários é preocupante, fazendo-nos lembrar da reação dos nazistas à arte moderna. E, de acordo com o conceito de arte desses grupos, quantos artistas seriam considerados “esquerdistas”, “degenerados que só fazem putaria e sacanagem”, “profanos”, “incitadores da pedofilia e zoofilia”, logo rebaixados à condição de “criminosos” ou dignos de terem um pênis desenhado na cara pelo gênio incompreendido do Roger?

Como nos lembra Ivana Bentes, professora e pesquisadora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ):

“Falam do absurdo que é misturar sexo e religião, mas se olharem o teto da Capela Sistina verão uma suntuosa representação de Michelangelo com cenas de nudez e sexo, que vão da criação, passam por Adão e Eva e chegam ao juízo final, expressando todos os tipos de paixões humanas. Isso em pleno Vaticano.”[22]

Selecionamos 12 artistas reconhecidos e celebrados mundialmente, que vão desde o século XV até os dias atuais, cujas obras despertariam a ira da direita reacionária e causariam um rebuliço caso fizessem parte do Queermuseu, mas que são orgulhosamente expostas e têm o seu status de arte respeitado nos museus ou coleções privadas em que se encontram.

Então, vamos conhecer essas obras “degeneradas”? Vamos!

1. Bernardino Luini 
(Dumenza,1485 – Milão,1532)

A Sagrada Família e João Batista,
primeira metade do séc. XVI.
Museu do Prado, Madri.
Virgem Maria, São José e duas crianças prestes a se beijarem — na boca: João Batista e aquele que simplesmente deu origem ao cristianismo, Jesus. Qual seria a reação dos conservadores que se revoltaram com o Queermuseu ao verem isso? Será que iriam se chocar da mesma forma ou entenderiam que simplesmente é um retrato idealizado da infância de Jesus e João Batista e reconheceriam que a incitação à pedofilia ou à prostituição infantil apenas existe na cabeça doentia deles?

Vale lembrar que os quadros da série Criança Viada comparados com essa pintura são pura inocência, já que são apenas uma releitura de fotos que retratam cenas comuns, do dia a dia de toda criança. Já na pintura de Bernardino os conservadores teriam motivos para se preocupar, mas não o fariam, sabe por quê? Porque é uma pintura renascentista, feita por um branco, do coração da sagrada civilização judaico-cristã, a Europa, e exposta num museu de Madri, na Espanha. Esta pintura, ao contrário das obras do Queermuseu, está inserida num contexto e carrega uma simbologia que o conservador respeita por acreditar que faz parte de uma tradição que confere statuse prestígio, logo ele jamais ousaria dar chilique no museu em que está exposta, tampouco pensaria em filmá-la para postar no Facebook.

Caso as pinturas de Bernardini Luini te lembrem as obras de Leonardo da Vinci não é por acaso, já que ambos pertenciam ao mesmo círculo de artistas e chegaram a trabalhar juntos. O próprio “Sagrada Família e João Batista” é uma derivação de “A Virgem das Rochas” de Leonardo, mostrando sua influência sobre Bernardini.[23] O quadro foi encomendado pelo governante de Florença e um dos maiores mecenas do renascimento Cosme de Medici como um presente para Filipe II de Espanha.

2. Hans Sebald Beham 
(Nuremberg, 1500 – Frankfurt am Main, 1550)

A morte e o par indecente (1529)
Uma mulher segurando o pênis do seu esposo na frente de uma criança, que nada mais é que o filho do casal. Mais uma obra artística que mostra para os conservadores uma imagem de fato chocante, não por acaso o casal que aparece na gravura foi chamado de “par indecente”.

E os fundamentalistas daqui achando o fim do mundo o quadro “Travesti da Lambada e Deusa das Águas” para poder transbordar toda sua homofobia e transfobia…

Gravura do séc. XVI, de uma época que perseguição religiosa era política de Estado, o que rendeu o banimento de Braham de Nuremberg, porém não por conta de sua obra “indecente”, mas por outro tipo de heresia: sua negação do batismo e de Cristo.

A gravura é apenas uma entre milhares feitas por Beham, que produziu em torno de duas mil, a maioria delas retratando a vida no campo.[24]

3. Michelangelo Buonarroti
 (Caprese, 1475 – Roma,1564)

Leda e o cisne (1530). National Galery, Londres.
A mitologia grega possui diversas histórias cheias de “putaria e sacanagem” e que renderam muitas “obras degeneradas” para a Arte. Entre as mais exploradas pelos artistas são as que contam as aventuras de Zeus com suas diversas amantes. Em uma delas, o senhor do Monte Olimpo se tornou um cisne para se deitar com Leda, rainha de Esparta.[25] Dessa união surgiram dois ovos: de um nasceram Helena e Clitemnestra; do outro, os irmãos que deram origem à constelação de gêmeos Castor e Pólux. Zeus também eternizou a forma com a qual se uniu à Leda, dando origem à constelação de cisne.

Ou seja, quando os conservadores olham para o céu à noite e tentam identificar as constelações, pelo menos duas delas se originaram de um mito que envolve zoofilia, e ainda de uma maneira fantástica. Eu realmente não entendo por que eles amam tanto a dita “civilização ocidental” que colocou “putaria e sacanagem” até nas estrelas. Alguém precisa avisar esses conservadores fundamentalistas que a “degenerada” Grécia Antiga é considerada o berço do Ocidente!

O mito de Leda e de Zeus transformado em cisne inspirou artistas como François Boucher, Paolo Veronese, Peter Rubens, Paul Cézanne, Leonardo da Vinci e Michelangelo. Este, dentre todos artistas que retrataram essa união, fez uma das versões mais “pornográficas”: Leda acomoda a cabeça do cisne entre seus seios e o beija; o cisne, por sua vez, cobre a vagina de Leda com suas retrizes, sugerindo a penetração.

Biagio como Minos em
O Juízo Final (1541)
Capela Sistina, Vaticano.
Michelangelo dispensa apresentações. Com apenas 23 anos esculpiu a Pietà, uma das esculturas mais impressionantes do mundo. Autor de obras-primas sublimes, como as esculturas de David e de Moisés, com as quais reproduziu com perfeição a anatomia humana; e de afrescos em que a riqueza das composições transcende ao divino, caso do ciclo inspirado no Velho Testamento, do qual faz parte uma de suas mais famosas obras, A Criação de Adão, localizada no teto da Capela Sistina; Michelangelo ainda se destacou como arquiteto e poeta. A excelência das obras de Michelangelo faz dele um dos artistas mais consagrados do mundo e o tornou eterno.

Quando Michelangelo pintava os afrescos da Capela Sistina ocorreu um episódio curioso e que nos faz lembrar da censura ocorrida contra o Queermuseu. Michelangelo costumava retratar as pessoas nuas em suas obras e isso incomodava os “Kataguiris” e “Diehls” da época, caso de Biagio da Cesena, o mestre de cerimônias do Papa Leão X. Existe mais de uma versão da história, mas em todas Biagio aparece como um censurador do trabalho de Michelangelo na Capela Sistina, no Vaticano. Numa delas, Biagio teria dito à Michelangelo que, devido à nudez das figuras retratadas na cena do O Juízo Final, ela estaria mais de acordo ornando um banheiro público ou uma taberna. Como resposta Michelangelo retratou Biagio na mesma cena como Minos, um dos juízes do inferno, porém, longe de lembrar a imponência do mito grego: com orelhas de burro e tendo seu saco escrotal e pênis sendo mordidos por uma serpente.[26]

Será que Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Roger, Felipe Diehl, Arthur Moledo do Val (Mamãefalei), Kim Kataguiri e demais conservadores fundamentalistas interpretariam essa cena como apologia à zoofilia também, para serem tão merecedores quanto Biagio de um par de orelhas de burro?

4. Peter Paul Rubens 
(Siegen, 1577 – Antuérpia,1640)


Saturno devorando um filho, 1638
Museu do Prado, Barcelona
Um velho morde uma criança no peito e puxa, como se estivesse prestes a arrancar um pedaço da carne. O sangue escorre. No semblante da criança a expressão da dor e da agonia. Ao fundo, nuvens espessas escurecem o céu dando uma atmosfera assustadora à cena. No topo, três estrelas enigmáticas como testemunhas do brutal infanticídio canibalesco. Trata-se de Saturno (equivalente ao deus Cronos na mitologia grega) devorando um dos seus filhos.

Temendo que a profecia de que seria destronado por um dos seus filhos se concretizasse, Saturno devorou todos os seus filhos, exceto Júpiter (ou Zeus), salvo por sua mãe Reia ao entregar uma pedra enrolada num pano em vez dele para que seu pai devorasse.[27]

O quadro magistralmente pintado em estilo barroco pelas mãos de Paul Rubens retrata a crueldade do deus do tempo contra os próprios filhos, provocando-nos horror e repulsa. O que diriam nossos fundamentalistas sobre Rubens se ele fosse um dos artistas do Queermuseu expondo essa obra? Será que o MBL faria vídeos exigindo a prisão de Rubens por incitação ao infanticídio e ao canibalismo? Será que Bolsonaro pediria seu fuzilamento?

Comumente citado como pintor flamengo, Rubens na verdade era alemão de nascimento. Contudo se identificava mais com a cultura latina, chegando a adotar o nome Pietro Paolo Rubens. Quando viveu na Itália, Rubens teve grande influência de artistas como Leonardo da Vinci, Rafael, Caravaggio e especialmente Michelangelo.[28]

Entre seus trabalhos, Saturno devorando um filho teve uma importância menor, mesmo assim exerceu grande influência em outros artistas, como Goya, que fez uma pintura com o mesmo tema e que é tão assustadora quanto o quadro de Rubens.

E, afinal, o que significam as três estrelas enigmáticas do topo dessa pintura? Elas são o próprio planeta que recebeu o nome do deus retratado, Saturno. Na época, acreditava-se que era essa a forma de Saturno, devido aos registros de Galileu, que, devido à limitação do seu telescópio, não conseguiu distinguir o planeta de seus anéis, confundindo-os com três estrelas que ficavam alinhadas.[29]

5. Francisco de Goya 
(Fuendetodos, 1746 – Bordéus, 1828)

El Aquelarre (1797-1798).
Museo Lázaro Galdiano, Madri.
Em seu vídeo sobre o Queermuseu, Felipe Diehl aponta para um quadro de um orixá (Elegbará de Nelson Boeira Faedrich) dizendo “ó o satanás no meio, ó; desconstrução da sociedade, da civilização judaico-cristã“. Qual seria então a sua reação ao ver El Aquelarre de Goya? Na pintura, vemos um ritual satânico (ritual aquelarre) em que bruxas entregam crianças como oferenda para o demônio, representado pelo “Grande Bode”. Acima vemos feiticeiros em forma de morcegos, ao fundo, pendurados pelo pescoço, vemos fetos sacrificados.[30]

A intenção de Goya ao retratar essa cena macabra era fazer uma crítica à hipocrisia, à violência das inquisições e às crendices e às superstições baseadas no fundamentalismo religioso da sociedade espanhola na época.[31] Isto é, Goya estava provocando justamente pessoas fundamentalistas como o Felipe Diehl, que encarou uma imagem de um orixá no Queermuseu como uma ameaça à sociedade.

Existe outra pintura de Goya com o mesmo nome e retratando uma cena semelhante, porém faz parte das 14 cenas da série Pinturas Negras que ornavam os muros da Quinta del Sordo, a casa de Goya. A obra tratada aqui foi encomendada para um palácio dos Duques de Osuna e faz parte de uma série menor, de 6 pinturas.

6. Katsushika Hokusai 
(Edo, 1760 – 1849)

O Sonho da Mulher do Pescador (criado em torno de 1820)
“Lá no Japão fecharam uma cratera no meio de uma avenida no mesmo dia, agora imagina se fosse aqui no Bananil… Demoraria meses e os políticos ainda iriam superfaturar em cima da obra!”. Ou: “Japonês é uma raça inteligente, faz aparelhos eletrônicos incríveis; já brasileiro nem sabe tabuada!”. Ou, ainda (e mais uma do Bolsonaro!): Lá no Japão crianças fazem operações matemáticas que um universitário brasileiro não faz“.

Quantas vezes não já ouvimos frases do tipo no ônibus, no trabalho, nos comentários de notícias sobre o Japão nas redes sociais, etc? É comum entre muitos conservadores no Brasil demonstrar todo o seu complexo de cachorro vira-lata falando sobre as virtudes e qualidades do povo japonês, e quase sempre emendando com “bem diferente desses brasileiros” (a própria nacionalidade sempre na terceira pessoa do singular ou do plural, porque brasileiro é sempre o outro, claro). A grande mídia ainda reforça tal complexo, com suas inúmeras reportagens sobre a eficiência e educação japonesas, como é de costume nos jornais da Globo. Para eles, o Japão é onde o capitalismo deu certo porque o povo é esforçado e honrado, só não é um país perfeito devido aos terremotos e tsunamis. Não interessa a esses conservadores procurar saber as reais causas que explicam o desenvolvimento do Japão, para eles é tudo uma questão de moral; os japoneses, para eles, são moralmente superiores.

Talvez esses conservadores entrariam em choque ao saberem que no Japão existe uma arte dedicada unicamente à “putaria”, “sacanagem” e “perversão”, conhecida como Shunga, e que pode ir muito além de usuais cenas eróticas. Pode ter gravuras de mulheres fazendo sexo com animais, por exemplo. É o caso da gravura “O Sonho da Mulher do Pescador” de Katsushika Hokusai, a qual ilustra uma mulher fazendo sexo com dois polvos da forma mais “pornográfica” possível.

“Perversões” à parte, Hokusai é considerado um dos maiores artistas do Japãodevido às suas magníficas gravuras em estilo Ukiyo-e[32], técnica equivalente ao que conhecemos como xilogravura (impressões usando madeira). As gravuras da série 36 vistas do Monte Fuji o consagraram como um mestre do estilo, entre as quais está a famosa “A Grande Onda de Kanagawa”, a obra-prima de origem asiática mais admirada e cultuada no Ocidente.

Alguns historiadores de arte dizem que a importância de Hokusai para o ocidente é tanta que sem ele o movimento impressionista provavelmente não teria surgido. Considerando que as gravuras de Hokusai exerceram grande influência em artistas como Claude Monet, Edgar Degas e Mary Cassatt, todos impressionistas, tal hipótese é bem coerente.[33]

Será que os conservadores brasileiros irão acusar Hokusai de “incitação à zoofilia”? Talvez, pelos japoneses terem criado o Playstation 4, conseguirem tapar crateras em avenidas num só dia e suas crianças saberem operações matemáticas que universitário brasileiro não sabe, seja outro departamento, outro nível, então dá para perdoar o Hokusai. Vamos deixar nosso moralismo demonizar apenas os artistas brasileiros do Queermuseu, porque brasileiro nem é gente.

Notou uma certa semelhança do estilo do desenho da gravura com o desenho da pintura Cenas do Interior II da Adriana Varejão? Não é por acaso, como dito anteriormente, Varejão se inspirou nas gravuras eróticas de Shunga para compor sua pintura.

7. Theodor Hildebrandt 
(Stettin, 1804 – Düsseldorf, 1874)

O assassinato dos filhos de Eduardo IV (1835). Museu Kunstpalast, Düsseldorf
Duas crianças de rostos angelicais prestes a serem sufocadas com um travesseiro. O assassinato dos filhos de Eduardo IV de Theodor Hildebrandt é um quadro que carrega uma dramaticidade intensa, além de tudo ser tão detalhado na pintura que parece real, fazendo-nos acreditar que é possível entrar na cena para impedir os dois carrascos de matarem duas crianças indefesas.

Bem, essa é a reação esperada de pessoas normais ao observarem essa pintura. Contudo, imagine qual tipo de reação esse quadro provocaria naqueles que veem “perversão” em tudo, caso estivesse no Queermuseu. Do jeito que são maldosos, poderiam enxergar incitação à pedofilia, ao infantícidio, ao “homossexualismo”, ao incesto gay entre irmãos, enfim, qualquer absurdo digno de ser especulado por uma mente bem suja e que projeta suas loucuras nos outros, menos o que o quadro de fato representa: um assassinato de crianças prestes a ser consumado, baseado na peça Ricardo III, de Hamlet.

8. Félicien Rops 
(Namur, 1833 – Essonnes, 1898)

A tentação de Santo Antônio (1878)
Santo Antônio era um cristão fervoroso, a ponto de fazer aquilo que muitos confundem com socialismo: distribuiu toda sua riqueza entre os necessitados, conforme os ensinamentos de Jesus. Depois seguiu a vida como um eremita no deserto, onde era diariamente desafiado pelo demônio, porém resistindo a todas as tentações.[34]

A história de Santo Antônio, em especial o período pelo qual passou por tentações no deserto, inspirou diversos artistas como Hieronymus Bosch, Gustave Flaubert, Max Ernst e Salvador Dali, sendo a tela deste a mais famosa.

Contudo, a versão mais polêmica delas curiosamente é pouco conhecida do público. O artista belga Félicien Rops retratou as tentações de Santo Antônio de uma forma que nenhum artista tinha ousado até então, valendo-se de toda liberdade que o simbolismo permitia nas artes: um demônio arranca Cristo da cruz e no lugar aparece uma mulher nua, a qual olha para são Sebastião de maneira provocante e desafiadora. No lugar de INRI, lemos EROS. Um porco e anjos da morte completam a cena. Temos, assim, a presença da blasfêmia, do satanismo, do erotismo e da morte, os quatro elementos comumente utilizados por Rops na composição de suas obras.[35] Ou seja, tudo aquilo que nossos inquisidores modernos chamam de “putaria”, “pornografia”, “perversão”, “vilipêndio”, “profanação”, e que seriam motivos mais que suficientes para enquadrarem o Rops no artigo 208 do Código Penal também, como fizeram com o Fernando Baril por seu Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva.

Aliás, Fernando Baril (e Félicien Rops, se sua obra também estivesse no Queermuseu) não é a única vítima do critério hipócrita utilizado pelos nossos fundamentalistas sobre o que deve ser considerado profanação criminosa ou não em releituras da crucificação. Basta lembrarmos da 19ª Parada do Orgulho LGBT em 2015, quando a atriz Viviany Beleboni apareceu crucificada para denunciar os abusos sofridos pela comunidade LGBT com a frase “basta de homofobia GLBT” acima da cruz, onde se leria INRI. Na época, Belebony foi alvo de discurso de ódio nas redes sociais e de ameaças, sofreu agressões físicas, foi intimada a depor (sim, também tentaram prendê-la pelo artigo 208 do Código Penal) e ainda foi acusada de “cristofobia” pelo deputado Marco Feliciano, em sua cínica tentativa de inverter a realidade.

Neymar e Viviany Beleboni; dois pesos, duas medidas
Porque com Jesus não se brinca, exceto nos casos em que a releitura da crucificação é feita por homem, hétero, evangélico, milionário e astro do futebol, um esporte símbolo da masculinidade, como fez o Neymar ao aparecer crucificado na capa da revista Placar, e ainda por motivo fútil. Aí é belo e moral, mesmo que seja uma revista com milhares de tiragens, exposta em bancas por todo o Brasil para milhões de pessoas verem, inclusive crianças, bem diferente da condição da obra de Baril, que estava numa exposição privada.

Distribuir sua riqueza entre os pobres como fez Santo Antônio que é bom, nenhum desses fundamentalistas quer. E é por isso que artistas como Félicien Rops “escarnecem” da hipocrisia cristã.

9. Heinrich Lossow 
(Munique, 1843 – Schleißheim, 1897)

O Pecado, 1880
Chegamos no pintor e ilustrador alemão Heinrich Lossow, o artista mais pornográfico do século XIX, que deixaria a turminha moralista do Kim Kataguiri e de Felipe Diehl de cabelo em pé com o quadro O Pecado, no qual temos um flagrante do coito entre um padre e uma freira.

Apesar de Lossow ser de uma época muito mais conservadora do que hoje, ele teve total liberdade para produzir várias pinturas e gravuras pornográficas, e em muitas delas tendo o moralismo como alvo. Ninguém o perseguiu, nem pediu sua prisão ou o acusou de “cristofobia”. Muito pelo contrário: como acadêmico de prestígio, Lossow foi convidado para ser o curador do castelo de Schleißheim, em Oberschleissheim, na Alemanha. Uma vida próxima do que resta da aristocracia europeia é algo que nossos conservadores sonham, tanto que existem muitos monarquistas entre eles, mas que jamais realizarão.

Além de ter tido como passatempo abordar temas eróticos em estilo rococó nos seus quadros e gravuras, Lossow também foi um grande ilustrador de livros de William Shakespeare, Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller.[36]

10. William-Adolphe Bouguereau 
(La Rochelle, 1825 –1905)

Cupido molhado (1891)
“O mestre não poderia oferecer um adolescente mais sexualmente estimulante do que este, mas, ao contrário de Oscar Wilde, que havia sido preso por pederastia, Bouguereau recebeu prêmios e honras”[37], constata o especialista em estudos culturais australiano Jon Stratton sobre o quadro Cupido Molhado do pintor francês William-Adolphe Boguereau.

Uma das maiores críticas dos conservadores à arte moderna é que ela não é bela, logo não a reconhecem como tal. Tanto que esta foi uma das críticas feitas por eles ao Queermuseu em comentários como “desde quando isso é arte?” Esse apego à forma muito provavelmente os faria considerarem, pelo menos num primeiro momento, o Cupido Molhado como a suprema manifestação da arte, e nem passaria pela cabeça deles a possibilidade de “incitação à pedofilia”, apesar da clara erotização da criança retratada. Iria demorar para a ficha dos conservadores cair (e, talvez, por conta disto, tenha sido injusto incluir Bouguereau nesta lista), o alarme não soaria de forma imediata como ocorreu quando viram os quadros da série Criança Viada, esta sim sem nenhuma erotização, que apenas retrata a infância LGBTT, mas que não foi poupada de acusações absurdas devido à maldade dos preconceitos de seus depreciadores.

O estilo de Bouguereau era tudo o que os conservadores entendem como arte: academicista, idealista, tradicionalista, clássico, técnico e, principalmente, perfeccionista.[38] Tão perfeito que se tornava artificial, kitsch. Contudo, isso não o tornava um elitista. Em sua obra também estão presentes os ciganos, os camponeses, os pobres, mas tão idealizados que acabam comprometendo sua denúncia social. A obsessão de Bouguereau pela perfeição em seus quadros o tornou um artista ostensivamente premiado e possibilitou que fizesse fortuna, mas eram enjoativos e seu estilo passou a ser severamente criticado pelos modernistas, que o acusaram de medíocre e sem criatividade. Assim, sua obra foi ofuscada pela ascensão do impressionismo, contudo o magnificamente belo presente nela impediu que caísse no esquecimento, garantindo sua importância e seu reconhecimento no mundo da arte.

11. Pablo Picasso 
(Málaga, 1881 – Mougins, 1973)

Dora e o Minotauro, 1936. Museu Picasso, Barcelona
Uma cena perturbadora: um minotauro avança sobre uma mulher nua e de forma aparentemente violenta. Trata-se de Pablo Picasso, representado pelo minotauro e Dora Maar, sua mulher e musa.

Faz parte de uma série de desenhos de Picasso tendo o minotauro como tema. A razão pela qual o artista se identificava com o minotauro faz parte de uma de suas fases de criação artística, no caso a surrealista, e se deve pela criatura representar a vigorosidade sexual e a bestialidade que habita em todos nós. O ritual de sacrifício de jovens para serem devorados na história do mito adquire outro significado, tornando-se uma investida sedutora da qual a mulher não pode escapar.[39]

Dora Maar teve uma profunda influência nas obras de Picasso, tanto que ela está em suas obras mais famosas, como na pintura Mulher Chorando e no mural Guernica, no qual ela é a mulher que segura um lampião. Sobre Dora estar triste na maioria das pinturas em que ela aparece, Picasso declarou que:
“Eu simplesmente não consegui fazer um retrato dela rindo… Por anos eu a pintei em posições de tortura. Isto não foi motivado por sadismo, tampouco por qualquer tipo de prazer particular. Eu simplesmente obedecia uma visão profunda que me foi imposta. Uma realidade profunda.”
O relacionamento entre Dora e Picasso foi em parte conturbado, porém, mesmo após a separação, mantinham um forte vínculo. Dora morreu na pobreza, recusando-se a vender as pinturas e desenhos de Picasso que ficaram com ela, os quais valiam uma fortuna, entre eles, o próprio desenho de Dora e o Minotauro.[40]

A obra de Picasso possui elementos psicológicos e simbólicos, além de possuir fases distintas, com um significado próprio, que pode torná-la difícil para o público leigo. Um fato que certamente faria Dora e o Minotauro ser mais um alvo de acusações descabidas se estivesse exposto no Queermuseu. Diante do espetáculo de ignorância que os reacionários cometeram contra essa exposição, não duvido que confundiriam o minotauro com um demônio e concluíssem que era um caso de “incentivo ao satanismo” ou, caso reconhecessem a criatura mítica, como um “incentivo à zoofilia”, ou mesmo poderiam cobrar indignação das feministas pelo “incentivo ao estupro” como costumam fazer em todos os casos que podem apontar hipocrisia no movimento feminista.

12. Hans Rudolf Giger 
(Chur, 1940 – Zurique, 2014)

Satan I, 1977

Por último um artista cujo trabalho é bem conhecido do público e que lhe garantiu um Oscar por efeitos especiais em 1979, o artista plástico suíço H. R. Giger, criador do “xenomorfo” em Alien, um dos monstros mais aterrorizantes que já apareceram no cinema.

A obra de Giger é repleta de “putaria”, “sacanagem”, “perversão”, “pornografia”, “profanação”… Nela, ocultismo, sexo, ossos e objetos mecânicos se mesclam para formar algo totalmente novo, original, que impressionou profundamente outros artistas tão surrealistas quanto Giger, como Salvador Dali[41], e que, por tal motivo, tornou Giger um dos artistas mais plagiados na cultura pop.

Criaturas biomecânicas com cabeças fálicas, paisagens orgânicas e eróticas de atmosfera lúgubre, abismos sem fim, rituais satânicos e demônios se masturbando compõem seus desenhos feitos em variadas técnicas, sendo a maioria deles pinturas com aerógrafo, o que lhes confere maior realismo.

Parte da inspiração dessa arte fantástica sombria é a própria infância de Giger, quando presenciou o terror da 2ª Guerra Mundial. Mesmo vivendo na Suíça, país que foi neutro no conflito, sua família temia que sua casa fosse alvo de bombardeios aéreos e por isso vivia quase na total escuridão à noite — desta maneira a casa não poderia ser localizada. Outras fontes de inspiração são os próprios pesadelos do artista e a literatura, como os livros de H. P. Lovecraft.[42]

Na pintura Satan I mais uma profanação usando a crucificação de Cristo que faria nossos reacionários declararem guerra aos “degenerados”: o demônio usando Cristo como estilingue e mirando diretamente para quem observa a pintura, o que pode ser profundamente perturbador para os fundamentalistas que querem censurar a arte.

Conclusão

Isto não é um cachimbo, de René Magritte (1929).
Roupas de borracha industrial, arte que comete o “crime” de usar símbolos religiosos, quadros que lembram da existência das crianças gays, cenas que retratam práticas sexuais e opressões escondidas, tudo isso numa exposição de arte para adultos (ninguém viu crianças na exposição) e de acordo com os temas que ela se propôs a abordar: sexualidade, relações de poder e questões LGBTT por meio de obras que vão desde o início do séc. XX até a contemporaneidade. No entanto, para os nossos conservadores, tal exposição era degenerada e o conteúdo de suas obras algo imperdoável, mesmo sendo realizada dentro de uma propriedade privada, que eles dizem ser sagrada; mesmo que o objetivo da instituição financeira que a organizou seja obter abatimento nos impostos, que a ala ultraliberal deles vive dizendo que é roubo.

“Perversão”, vociferam os mesmos que curtiram e compartilharam nas redes sociais os adesivos misóginos da ex-presidente Dilma colocados na entrada do tanque de gasolina de carros. “Putaria”, alertam os mesmos que responderam segurando um pênis gigante a um pedido de checagem de fatos. “Pornografia”, declaram os mesmos que mostraram a bunda quando abordados para uma entrevista. “Profanação”, decretam os mesmos que se calam diante dos constantes ataques aos centros religiosos de matriz africana.

A desonestidade e a hipocrisia são as bases dos nossos reacionários fundamentalistas. No fim, o que de fato eles conseguiram foi transformar o Queermuseu numa exposição de mitos, embustes e falhas da nossa sociedade.

Fica exposto, mais uma vez, o mito da iniciativa privada como elemento civilizador. O banco Santander, valendo-se da Lei Rouanet, a qual permite que instituições privadas tenham abatimento de impostos em troca delas apoiarem financeiramente projetos culturais, patrocina uma exposição Queer, mas que foi cancelada assim que passou a incomodar os setores mais reacionários da nossa sociedade. Ou seja, o suposto engajamento das instituições privadas nas causas identitárias — no caso, a dos LGBTT —, está mais para um discurso que pode mudar conforme a conveniência, do que um real princípio.

Fica exposta a farsa que é a dita “nova direita”. Na verdade, esse “novo” já nasceu velho, e com as faces que já conhecemos bem: da indignação de ocasião, do falso moralismo, do ódio ao diferente, enfim, do velho reacionarismo cheirando a mofo, que provocaria repúdio até em conservadores como Nelson Rodrigues.

Fica exposto o nosso fracasso como sociedade, incapaz de educar até mesmo aqueles que tiveram acesso à educação, pois não se engane: a maioria das pessoas que compartilharam o vídeo do Felipe Diehl são escolarizadas. O episódio deixou claro que parte da nossa sociedade não sabe diferenciar representação de intenção, tampouco interpretar corretamente obras de arte nada complicadas, mesmo após as explicações dos seus autores, fazendo-nos perceber o profundo abismo de pobreza cultural, de analfabetismo funcional e de preconceitos arraigados em que nos encontramos. As instituições, como o judiciário, em vez de agir para conter a onda de intolerância, torna-a legítima. Políticos demagogos, por sua vez, se sentem livres para censurar ainda mais.

O dia 10 de setembro de 2017 ficará marcado na história brasileira como um tributo à estupidez humana e, talvez, como um presságio da barbárie.
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FONTE: Voyager


Referências

[3] Cultura e Mercado – Hábitos culturais do brasileiro
[4] Memorial da Democracia – CCC VOLTA À CENA EM ATAQUES A TEATROS
[5] Presidência da República – Código Penal
[16] Enciclopédia Itaú Cultural – Lygia Clark
[23] FREEDBERG, S. J. – Painting in Italy, 1500–1600
[24] The J. Paul Getty Museum – Sebald Beham
[25] Theoi Project – Leda
[27] Theoi Project – Kronos
[28] BELKIN, Kristin Lohse – Rubens
[29] The Galileo Project – Saturn
[30] Gobierno de España – Ficha Completa de El Aquelarre
[34] Encyclopædia Britannica – Saint Anthony of Egypt
[36] Goethezeitportal – Illustrationen von Heinrich Lossow
[37] STRATTON, Jon – The desirable body: cultural fetishism and the erotics of consumption. (p. 120)
[40] The Guardian – A tortured goddess