segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Microcefalia: o zika virus é realmente o vilão?

Por Paulo Franco

Qual será a verdadeira causa do recente surto de microcefalia que vem ocorrendo na America Latina, principalmente no Brasil e alguns países da América Latina? 

SÍNTESE DO PROBLEMA

O que é a microcefalia? 


Há muito pouco tempo atrás,  ninguém sabia o que estava acontecendo, todos estavam perplexos, principalmente médicos e epidemiologistas. "Estamos diante de algo desconhecido", disse Vera Magalhães, professora titular de doenças infecciosas da Unifep (Universidade Federal de Pernambuco).

Logo em seguida começaram surgir especulações do que estava acontecendo e as causas dos problemas.  Atualmente já se sabe que está ocorrendo um surto de má formação do Sistema Nervoso Central (SNC), 

A causa mais provável é a contaminação pelo zika vírus, transmitido pelo mosquito Aedes Egypt - o mesm que transmite a dengue e chycungunha - já que ocorria ocorria simultaneamente uma epidemia do vírus no Brasil, mais precisamente na região nordeste, com uma acentuação maior no estado de Pernambuco. 

As estatísticas da contaminação dos vírus da Dengue, Zika e Chycungunha não são precisas, por diversos motivos.  Primeiro porque o Brasil só conhecia o vírus da Dengue, em segundo lugar porque os sintomas são parecidos, em terceiro, como os sintomas da contaminação pelo zika vírus são mais "suaves" do que da dengue, donde se conclui que muitas pessoas não procuraram atendimento, visto que o tratamento é, em geral, simples, basicamente hidratação, repouso. 

Desta maneira muitos registros de dengue pode ser na verdade uma contaminação por zika, nos casos em que o paciente não foi submetido a exames laboratoriais e o quadro clínico da zika ainda era de pouco conhecimento pelos profissionais de saúde. 

Se não temos, pelo menos eu até o momento, números melhores sobre a contaminação da população pelo zika vírus, pelo menos sabemos que foram confirmados 462 casos de microcefalia ou má formação do sistema nervoso central, dos quais 41 associados ao zika vírus.   Há ainda quase 4.000 casos suspeitos sendo investigados.

41 casos de microcefalia,  supostamente relacionados ao zika vírus, dentre o total de 462 casos identificados representa apenas  9% o que já não parece ser uma proporção tão elevada. O problema se complica na ausência da informação de quantas gráfidas foram infectadas com o zika vírus.  Provavelmente, muitas grávidas não notificaram sua doença, já que os sintomas são menos agressivos do que a dengue.  Se o número de gravidas infectadas for grande, a proporção cairia mais ainda, mas se o número de grávidas infectadas for pequeno, então a proporção dos casos confirmados aumenta de relevancia.  

Tudo depende da qualidade das informações para que se tenha um quadro melhor da situação.  É fundamental que as autoridades providencie paralelamente, um planejamento de pesquisa, com uma metodologia rigorosa, dentre as quais, um levantamento de todas as mulheres que ficaram gráfidas nesses período, colher material para identificar se foram infectadas pelo virus, na época do desenvolvimento do feto. entre outras providências protocolares. 

OCORRÊNCIAS EM OUTROS PAÍSES



















Uganda
O vírus foi isolado e patenteado pela primeira vez em 1947 por pesquisadores da Fundação Rockefeller (Dr. Jordi Casals)[17] de um macaco-reso (Macaca mulatta) na floresta de Zika na República de Uganda, África.

Ironicamente o pais onde foi descoberto o vírus só há registro de dois casos de contaminação até hoje.  Lá o veículo transmissor, o Aedes Aegypt é de uma espécie que não gosta do sangue humano como o nosso Aedes Aegypt.

Nigéria e outros países da África e Ásia
O virus foi isolado pela primeira vez em humanos em 1968, na Nigéria. De 1951 a 1981, evidências de infecção humana foram reportadas em outras nações africanas como Tanzânia, Egito, República Centro-Africana, Serra Leoa e Gabão, assim como em partes da Ásia incluindo Índia, Paquistão, Malásia, Filipinas,Tailândia, Vietnã e Indonésia.

Micronésia
A Micronésia, mais precisamente, no distante e isolado arquipélago de Yap, em 2007 o vírus foi detectado a partir de um surto de sintomas que pareciam ser dengue, mas depois foi identificado como sendo zika.  Segundo estimativas, 73% da população foi infectada, sendo confirmados 47 casos de 59 prováveis.  

A população do arquipélago é de pouco mais de 6.300 habitantes, mostrando uma grande distancia entre os números de casos da doença registrada (47) e do número de pessoas infectadas (73% ou 4.600).  Esse cenário sugere duas alternativas, ou o número pessoas infectados não seja realmente os 73% ou o número de caso seja muito superior ao registrado.  Essa segunda hipótese é mais plausível, pois há possibilidade de que muitas pessoas não tenha procurado ajuda médica. Mas pode ser que as duas coisas tenham ocorrido.

Não há registro de grávidas infectadas e nem da ocorrência de casos de má formação do SNC, mas deve ser ressaltado que o fato de não haver registros, não indica que não houve a ocorrência.  

Polinésia Francesa
A Polinésia, detectado em 2013,  teve uma epidemia de zika basicamente em 2013 e 2014.  Não houve registro de microcefalia, mas houve casos 17 casos de má-formação congênita do sistema nervoso central (SNC).

As autoridades de saúde não relacionaram os problemas de má formação congênita ao zika, somente após o caso brasileiro é que eles despertaram e passaram a considerar o zika como responsável.  Em testes com 4 casos, as agráfidas não apresentaram resultados positivos para o zika, mas sim para um flavivírus, que é da mesma família. 


Cabo Verde
Cabo Verde apresentou mais de 7.000 casos de zika vírus, só no período de outubro de 2015 até janeiro de 2016.  Foram identificadas 40 mulheres grávidas portadoras do zika vírus.

Não foi registrado nenhum caso de microcefalia


Colômbia

A Colômbia registrou, a partir de 2015 cerca de 25.000 casos de contaminação com o zika vírus.  Dentre esses casos, mais de 3.000 casos foram diagnosticados em mulheres gráficas.  Mas não houve nenhum registro de ocorrência de microcefalia.


INFORMAÇÕES PARA REFLEXÃO



  • O Instituto Carlos Chagas, da Fiocruz Paraná, confirmou que o vírus zika é capaz de atravessar a placenta durante a gestação. A análise foi feita a partir de amostras de uma paciente do Nordeste que sofreu um aborto retido –quando o feto deixa de se desenvolver dentro do útero– durante o primeiro trimestre de gravidez.  
  • Na Universidade da Ljubljana, na Eslovênia, pesquisadores encontraram altos níveis de carga viral nas células cerebrais de um feto microcefálico, abortado por uma mulher eslovena que trabalhou por um período no Brasil.  Os pesquisadores, reconhecem que o achado são as evidências mais fortes até então encontradas, mas reconhecem não são provas suficientes para "bater o martelo" para determinar que o zika virus causa microcefalia.
  • É a primeira vez que se identifica material genético de um vírus no tecido da placenta. O achado confirma a transmissão do vírus via placenta, segundo os pesquisadores. 
  • A Reduas - Rede Universitária para o Meio Ambiente e Saude da Universidade de Córdoba na Argentina, divulgou um comunicado onde defende que a causa da má formação do SNC, incluindo a microcefalia, é a substância química Pyroproxyfen, um larvicida, usada pelas autoridades de saúde brasileiras no abastecimento de água, onde o surto da epidemia é alta e o controle de foco de reprodução é dificil e com pouco sucesso.   
  • A Abrasco, Associação Brasileira de Saúde Coletiva, teria manifestado apoio ao relatória da organização argentina, ipsis literis.  Tanto a Reduas como a Abrasco seriam contra o uso intensivo dessa substância, tanto diretamente na água como na pulverização,  alertando para os riscos que podem representar.  Todavia a própria Abrasco, já desmentiu essa notícia veiculada na imprensa, alegando um mal entendido e negando a relação entre microcefalia e o larvicida.
  • A US EPA - United States Environmental Protection Agency, divulgou estudo, usando embriões de Rhinella Arenarum (sapo-boi) onde o herbicida 2,4-D mostrou ser 10 vezes mais tóxico, altamente teratogênico, causando entre outros males, a microcefalia.
  • O zika vírus foi descoberto pela equipe de pesquisadores da Fundação Rockfeller em 1947, quando pesquisava vírus que causam a Febre Amarela, em 1947, na floresta Zika em Uganda.  A fundação patenteou o virus e é até hoje a proprietária do vírus.  Ela mantem os microorganismos em cultura para ser vendidos a quem se interessar - governos, universidades, empresas, etc. 
  • A empresa britânica de biotecnologia Oxitec produz insetos geneticamente modificados para atuar na prevenção de epidemias.  Ela inaugurou uma unidade em Campinas-SP, onde produz cerca de 2 milhões de insetos por semana. Algumas localidades do NE estão convivendo com 3 a 4 tipos de Aedes Egypt que foram soltos pela empresa. 


EFEITO MANADA E O DESPREZO PELA METODOLOGIA CIENTÍFICA

Já é sabido que o subjetivismo é uma característica mais presente nos seres humanos do que um ceticismo, um tratamento mais racional e lógico, no dia a dia, inclusive nas nossas atividades profissionais, principalmente quando o tempo é uma variável determinante. A medicina não foge desse padrão.

Mas também sabemos que o uso de  "evidências empíricas" é um dos maiores problemas para a determinação de uma solução de um problema.  O problema torna-se mais grave com a qualidade de nossa imprensa, onde vemos uma afirmação leviana como a da Revista Veja: "A relação entre Zika e microcefalia fetal está 100% comprovada, o Ministério da Saúde confirmou o fato após detectar o vírus em um bebê com microcefalia que foi a óbito".  E há umas autoridades que nos fazem arrepiar, como o Diretor da OPAS/ONU que diz: "não tenho dúvida do elo entre zika e microcefalia".

A gravidade, a velocidade e a abrangência do problema são fatores que estimulam exponencialmente a ocorrência do efeito manada.  Uma pessoa fala uma coisa, outra assume aquela fala e complementa, na mesma direção.

Qualquer evidência, por menor que seja, apontando na mesma direção, é suficiente para o reforço do comportamento dos envolvidos no problema.

A postura dos pesquisadores eslovenos que encontraram material genético no cérebro de um feto microcefálico, foi mais comedida, ao dizer que havia encontrado a evidência mais forte até o momento, mas não poderia "bater o martelo" na relação causal da zika com a microcefalia.

O que vemos é um desprezo pela metodologia científica.  É inaceitável que autoridades e profissionais da saúde, assumam essa relação sem uma pesquisa com o uso rigoroso de uma metodologia científica, com controle laboratorial, amostragens representativas, testes de hipóteses, etc.

Não há nada mais comum do que conclusões baseadas em "evidências empíricas" serem refutadas posteriormente após serem submetidas aos testes científicos.   Cada caso é um caso, mas sempre são enormes os prejuízos causados por decisões tomadas erradamente, tanto de natureza financeira, como à saúde.

Dentre todas as informações levantadas até agora, as mais frágeis são aquelas que defendem o larvicida Pyroprofen como causa da Microcefalia.  Os relatórios apresentados parecem mais uma defesa ideológica do que uma verdade científica.  Não há nenhuma pesquisa que dê respaldo à tese defendida.  Na verdade nem evidências empíricas existem.

O médico e professor Luis Cláudio Correia, aborda de forma objetiva e muito didática, a questão da ausência de ceticismo e do uso de metodologia científica (hipótese nula).




ALGUNS QUESTIONAMENTOS INEVITÁVEIS

  • O zika vírus é realmente o agente causador dos casos de microcefalia no Nordeste brasileiros? 
  • O produto Pyroproxyfen pode ou não ser o verdadeiro agente causador de microcefalia no Brasil? 
  • A ocorrência simultanea de Microcefalia e a epidemia de zika vírus poderia ser apenas um coincidência ao invés de uma relação de causalidade? 
  • O surto de microcefalia no nordeste brasileiro poderia ser consequência de alguma variável não identificada até o momento como o  larvicida Pyroproxyfen ou o herbicida 2,4-D? 
  • O zika vírus no Brasil poderia ser um mutante decorrentes, intencional ou não, de testes feitos pelos laboratórios da Fundação Rockfeller. 
  • Os insetos modificados, comercializados pela Oxytec poderia ter algum influência negativa em todos esse imbróglio mosquito, vírus, microcefalia? 
  • As evidências descritas pelos pesquisadores da Eslovênia e  pelos pesquisadores da Fiocruz do Paraná, dispensam a realização de ensaios clínicos, com uso de testes hipoteses para determinar que o zika vírus é agente causador de microcefalia?
  • Quanto é significativa o número de microcefalisas, vis a vis o número de mulheres grávidas infectadas pelo zika vírus dada a fragilidade dos dados disponíveis?  
  • Quais fatores explicam a existência do surto de microcefalia no caso brasileiro e a inexistência de surto de microcefalia nos casos de Cabo Verde e Colômbia? 
As evidências a favor da causalidade do zika vírus vem se fortalecendo, mas estamos longe de afirmar isso com segurança que o problema exige.   Há que se proceder um aumento do estoque de informações e iniciar tanto quanto possível, um processo mais rigoroso de investigação científica, obedecendo os protocóloss internacionais de pesquisa nessa área do conhecimento.

Referências:
BBC: Polinésia Francesa também investiga má-formação de fetos após epidemia de zika
BBC: Brasil deve se preparar para zika endêmica, dizem cientistas 
BBC: Abrasco desmente que tenha dito que haja ligação entre Microcefalia e Larvicida
Biologia TotalGenoma do Zika é identificado no cérebro de um feto com microcefalia!
Carta Maior: Nota técnica da Abrasco sobre microcefalia e doenças relacionadas ao Aedes aegypti
Environmental Toxicology: Volume 26, Issue 4, pages 373–381, August 2011
ÉPOCA: Governo do RS suspende larvicida Pyriproxyfen
Folha de SP: Vírus zika consegue ultrapassar a placenta na gestação, confirma análise 
Medicina Baseada em Evidências: Luis C. Correia - Princípio da Hipótese Nula
ReduasReport from Physicians in the Crop-Sprayed Town regarding Dengue-Zika, microcephaly, and massive spraying with chemical poisons
Voa Portugês: Cabo Verde com mais de sete mil casos de zika, mas sem microcefalia 
Yahoo news: Colômbia, 3.177 pregnant women with Zika; no microcephaly 


sábado, 13 de fevereiro de 2016

"Um manifesto humanista", o livro do fotógrafo Araquem Alcântara sobre o "Mais Médicos"

Por Manuela Azenha


'Importância do programa é essa: o velhinho cruza com o médico na rua, toca nele e diz que está dando resultado o tratamento. É o contato direito, ter ali o porto seguro', conta Araquém Alcântara



É um manifesto humanista, mais do que um livro de fotografia. É assim que Araquém Alcântara, um de nossos maiores fotógrafos de natureza — ele prefere ser chamado de fotógrafo brasileiro — qualifica a última publicação que lançou. O livro Mais Médicos é um registro do programa do governo federal que levou mais de 18 mil médicos a 4 mil municípios do País. “Eu queria ir a esses lugares onde o Estado está chegando pela primeira vez”, conta Alcântara, em seu escritório na Vila Olímpia, zona oeste de São Paulo. “Eu sei como é, minha infância foi assim. Meus pais, analfabetos, nunca foram a médico nenhum”.


Segundo o texto de apresentação do livro, escrito pelo ex-ministro da Saúde, Arthur Chioro, cerca de 63 milhões de brasileiros passaram, somente agora com o Mais Médicos, a contar com a atuação de equipes de Saúde da Família com a presença de médicos, que garantem 80% dos problemas de saúde da população antes que se tornem graves.
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Dr. Melgaço: O Pior IDHM e as "Maribéis"  
PEC 215: Os índios e o golpe na Constituição  
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Globo Rural: Médicos Melhoram a Saúde de Regiões Distantes
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Alcântara percorreu 19 estados e 38 cidades durante um ano. Foi a lugares ermos, onde nunca havia tido a presença de um médico. “As comunidades se sentem brasileiras, amparadas pelo Estado. É impressionante, você vê a presença do Estado — que é o que falta no Brasil. Foi nesse aspecto que eu quis fazer esse ensaio, para registrar essa transformação no País”. A logística da viagem foi bancada pelo governo federal.


O fotógrafo tem 46 anos de profissão e já publicou 49 livros, mas ainda vibra com cada imagem ao folhear sua última publicação: “Olha esse índio, olha esse peitoral, isso é África total! Esse é meu País! Um Brasil que ainda não foi descoberto, em 2015!”.

Araquém vai pinçando algumas histórias, como a da médica cubana que descobriu que o foco de esquistossomose em Igreja Nova, Alagoas, era causado pelos canais de irrigação dos arrozais. Ou então a do paciente velhinho, em Manaus, vítima de hanseníase, sem uma das pernas e com os dedos das mãos atrofiados. Apaixonado pela médica cubana que o atende, escreve diversos poemas em sua homenagem. 


Na Ilha do Marajó, no Pará, uma médica cubana faz as vezes de assistente social e conselheira. Diante de um bebê nascido com paralisia e uma mãe viciada em drogas, reuniu a família, redistribuiu as tarefas e delegou ao tio a responsabilidade de tratar da doença do sobrinho.

O roteiro de Araquém não ficou apenas na floresta. No Rio de Janeiro, o fotógrafo se encontrou com o médico João Marcelo Goulart, neto do ex-presidente João Goulart, que trabalha na favela da Rocinha. “Teve todo um esquema para liberar a nossa entrada. Passamos por vários caras armados, são os donos do pedaço. Triste”. Na favela, foram à casa de uma mulher que, em surto de esquizofrenia, matou a facadas o marido. 


"A importância do Mais Médicos é essa: o velhinho cruza com o médico na rua, toca nele e diz: está dando resultado o tratamento. É o contato direito, ter ali o porto seguro”, diz Alcântara.

As fotografias do livro serão expostas em diversas mostras, dentre elas uma em Havana, Cuba, e outra em Genebra, Suíça, na sede da Organização Mundial de Saúde.




























FONTE: opera mundi

sábado, 9 de janeiro de 2016

Freud e Einstein sobre a Guerra. Uma carta para ser lida sempre













Prezado Professor Einstein,

Quando soube que o senhor intencionava convidar-me para um intercâmbio de pontos de vista sobre um assunto que lhe interessava e que parecia merecer o interesse de outros além do senhor, aceitei prontamente. Esperava que o senhor escolhesse um problema situado nas fronteiras daquilo que é atualmente cognoscível, um problema em relação ao qual cada um de nós, físico e psicólogo, pudesse ter o seu ângulo de abordagem especial, e no qual pudéssemos nos encontrar, sobre o mesmo terreno, embora partindo de direções diferentes. O senhor apanhou-me de surpresa, no entanto, ao perguntar o que pode ser feito para proteger a humanidade da maldição da guerra. Inicialmente me assustei com o pensamento de minha — quase escrevi ‘nossa’ — incapacidade de lidar com o que parecia ser um problema prático, um assunto para estadistas. Depois, no entanto, percebi que o senhor havia proposto a questão, não na condição de cientista da natureza e físico, mas como filantropo: o senhor estava seguindo a sugestão da Liga das Nações, assim como Fridtjof Nansen, o explorador polar, assumiu a tarefa de auxiliar as vítimas famintas e sem teto da guerra mundial. Além do mais, considerei que não me pediam para propor medidas práticas, mas sim apenas que eu delimitasse o problema da evitação da guerra tal como ele se configura aos olhos de um cientista da psicologia. Também nesse ponto, o senhor disse quase tudo o que há a dizer sobre o assunto. Embora o senhor se tenha antecipado a mim, ficarei satisfeito em seguir no seu rasto e me contentarei com confirmar tudo o que o senhor disse, ampliando-o com o melhor do meu conhecimento — ou das minhas conjecturas.

O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas, permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me se, nessas considerações que se seguem, eu trilhar chão familiar e comumente aceito, como se isto fosse novidade; o fio de minhas argumentações o exige.
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É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opinião que podem chegar a atingir a mais raras nuanças da abstração e que parecem exigir alguma outra técnica para sua solução. Esta é, contudo, uma complicação a mais. No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua força. Conseguia-se esse objetivo de modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, se o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer sua oposição, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo. Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual, que mencionarei posteriormente. À intenção de matar opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na realização de serviços úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Foi este o início da idéia de poupar a vida de um inimigo, mas a partir daí o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingança do adversário vencido e sacrificou uma parte de sua própria segurança.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ipea: Situação de extrema pobreza teve redução de 63% nos últimos 10 anos


Só em 2013 e 2014 a redução da miséria foi de 30%


Foto de Sebastião Salgado
A taxa de pobreza extrema na última década teve redução de 63%. A conclusão é do estudo "Pnad 2014 - Breves análises", uma nota técnica feita com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), lançado nesta quarta-feira (30) pela Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea). 

De acordo com o estudo, 2,48% da população estava em situação de extrema pobreza em 2014, índice 63% menor que em 2004. De 2013 a 2014, a taxa de pobreza extrema caiu 29,8%, "uma redução importante", ressalta o texto, que associa a queda à manutenção do aumento da renda e redução das desigualdades, bem como o aumento da escolaridade e das condições gerais de vida do brasileiro e a diminuição das brechas que separam negros de brancos, mulheres de homens e trabalhadores rurais de urbanos.
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"A preços de junho de 2011, a média (da renda domiciliar per capita) passou de R$ 549,83/mês em 2004 para R$ 861,23/mês em 2014 (a deflação é feita pelo INPC, ajustado de acordo com o Texto para Discussão 897). O crescimento real foi de 56,6%, 4,6% ao ano. Levando os valores para preços de dezembro de 2011, pode-se usar o fator de Paridade do Poder de Compra para consumo privado, calculado pelo Banco Mundial, para converter os valores de reais para dólares internacionais. Multiplicando o valor mensal obtido por 12, e dividindo por 365, tem-se que a renda média passou de US$ 11,13/dia para US$ 17,44/dia", aponta o relatório.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

14 de Dezembro, Dia Nacional de Combate à Pobreza


No últimos anos, o Brasil reduziu em 50% o número de pessoas que passam fome e em 75% a pobreza extrema, graças aos programas sociais e investimentos em políticas públicas focadas em desenvolvimento humano e social.  

Parte do mandato do PNUD, a erradicação da pobreza é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que entrarão em vigor a partir do dia 1º de janeiro de 2016. 


Dos ODM aos ODS



O documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - Rio+20 dispõe que o desenvolvimento de objetivos e metas, tal qual aplicado em relação aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, seria útil na busca do desenvolvimento sustentável, por meio de ações focadas e coerentes. 

Decidiu-se estabelecer um processo intergovernamental inclusivo e transparente que fosse aberto a todos, com vistas a elaborar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Após mais de três anos de discussão, os líderes de governo e de estado aprovaram, por consenso, o documento “Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”. A Agenda é um plano de ação para as pessoas, o planeta e a prosperidade. Ela busca fortalecer a paz universal com mais liberdade, e reconhece que a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema, é o maior desafio global ao desenvolvimento sustentável.

A Agenda consiste em uma Declaração, 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as 169 metas, uma seção sobre meios de implementação e de parcerias globais, e um arcabouço para acompanhamento e revisão.
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O conjunto de objetivos e metas demonstram a escala e a ambição desta nova Agenda universal. Os ODS aprovados foram construídos sobre as bases estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), de maneira a completar o trabalho deles e responder a novos desafios. São integrados e indivisíveis, e mesclam, de forma equilibrada, as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental.

Aprovados na Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (25-27 de setembro 2015), a implementação dos ODS será um desafio, o que requererá uma parceria global com a participação ativa de todos, incluindo governos, sociedade civil, setor privado, academia, mídia, e Nações Unidas.

Os esforços conjuntos para o alcance dos ODM até o fim de 2015 não se encerrarão nessa data. As ações do PNUD a partir de então estarão alinhadas com os ODS, tendo em mente a necessidade da finalização do trabalho no âmbito dos ODM, visando “não deixar ninguém para trás” no processo de desenvolvimento sustentável.

Estamos determinados, no espírito da Agenda 2030, a tomar medidas ousadas e transformadoras que se necessitam urgentemente para pôr o mundo em um caminho sustentável e resiliente.


Os cinco P´s da Agenda 2030




Do global para o local

Os ODS, embora de natureza global e universalmente aplicáveis, dialogam com as políticas e ações nos âmbitos regional e local.

Na disseminação e no alcance das metas estabelecidas pelos ODS, é preciso promover a atuação dos governantes e gestores locais como protagonistas da conscientização e mobilização em torno dessa agenda.

O PNUD Brasil continuará contribuindo para o desenvolvimento de capacidades em âmbito local - como tem feito com os ODM (ver portalodm.com.br e atlasbrasil.org.br) - visando à implementação e ao monitoramento dos ODS.
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FONTE: ONU/ONUD