Por Alexander Main
Os venezuelanos têm bons motivos para exprimir seu descontentamento diante de um poder que sofre para transformar as estruturas do país (aparelho produtivo, sistema fiscal...). Os protestos recentes foram assumidos por uma ala da oposição que tem apenas um objetivo: derrubar o presidente eleito Nicolas Maduro.
O dia 12 de fevereiro, três jovens venezuelanos morreram numa manifestação antigoverno em Caracas. Essa jornada sangrenta marcou o início de um dilúvio de reportagens e editoriais com títulos dramáticos: “A Venezuela agita a Venezuela” (The Wall Street Journal, 12 fev.); “A Venezuela em crise é a Ucrânia da América Latina” (Le Figaro, 1-2 mar.); “Os venezuelanos no impasse do ‘chavismo’” (Le Monde, 12 mar.).
O governo norte-americano não tardou em se juntar ao coro das cassandras. Em 21 de fevereiro, o secretário de Estado John Kerry denunciava uma “tentativa de abafar a contestação”. Para aqueles que descobrem a situação por meio do prisma dos grandes meios de comunicação e das declarações de Washington, parece que uma juventude apaixonada pela paz e pela democracia confronta a repressão brutal de um Estado petroleiro cujos dirigentes perderam o contato com o povo real.
Menos de um ano após a morte de Hugo Chávez, a missa já está rezada. O historiador mexicano Enrique Krauze condensa o espírito disso em um texto publicado no El País (26 fev.) e no New York Times (28 fev.): “A Venezuela está claramente deslizando para a ditadura”. Mas essa representação do presidente Nicolas Maduro como um Ceausescu dos trópicos reflete realmente a crise que o país atravessa?
As repreensões endereçadas ao regime bolivariano não são de todo imerecidas. A taxa de homicídios na Venezuela continua sendo uma das mais elevadas do mundo.1 Apesar das conquistas sociais obtidas ao longo dos dez últimos anos – entre elas uma queda de 50% da taxa de pobreza2 –, a economia padece de sérias disfunções, entre elas uma inflação galopante, um mercado negro do dólar que escapa a qualquer controle e que acelera a disparada dos preços, assim como as repetidas faltas de produtos que não poupam nem os bens de consumo correntes.3
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Mas se é verdade que a criminalidade, a inflação e as quebras de estoque atiçam a revolta contra o governo, grande parte das manifestações foi organizada pela ala mais radical da oposição. Portanto, o objetivo político se resume em uma palavra: a salida, a queda de Maduro e de “todos aqueles que estão encarregados das instituições públicas”,4 como o exige Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao, a municipalidade mais rica da Venezuela.
Um ar de déjà-vu
Mas nem todos os opositores aderem a essa linha dura. Em abril de 2013, Maduro ganhou a eleição presidencial com uma ligeira vantagem de 1,49%. Em dezembro, a oposição tentou transformar as eleições municipais em “referendo anti-Maduro”; mas, com um resultado inferior em dez pontos àquele do grupo bolivariano, ela fracassou pesadamente. O ex-candidato à presidência Henrique Capriles renunciou a qualificar o presidente de “ilegítimo”; ele até chegou a concordar em participar de uma série de discussões sobre a criminalidade na Venezuela. Quando ressoaram os primeiros apelos às manifestações, ele se recusou a associar-se a eles.