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segunda-feira, 21 de março de 2016

Advertências ao futuro do Brasil (a partir do passado da Itália)

Por Andrea Rizzi

"Na Itália, vários investigados e presos acabaram cometendo suicídio. O que aconteceu depois? Os resultados judiciais foram irregulares. Muitos réus foram condenados; muitos outros absolvidos."

Os acontecimentos que sacodem o Brasil em 2016 se parecem assombrosamente com o terremoto político-judicial que assolou a Itália no início dos anos noventa. Aqueles que procuram entender até onde pode chegar a atual crise brasileira têm, portanto, naquela experiência um sugestivo paradigma.

A gênese e o desenvolvimento das duas crises foram quase idênticos. Um país que, depois de uma ditadura instala sua democracia com décadas de estabilidade e considerável progresso econômico sofre uma degeneração de seu tecido político. Nela, os partidos adquirem um protagonismo desmedido – na Itália se falava de partidocracia mais que de democracia –, interagem num fórum político ineficiente e litigioso que gera incompreensão na sociedade civil e saturação na comunidade empresarial. Paulatinamente, aproveitam sua influência e certo clima de impunidade para se financiar vorazmente à base de corrupção; parte dessa extração do sistema sanguíneo da sociedade acaba nos cofres dos partidos políticos; outra, diretamente nos bolsos dos dirigentes.

Mas em um determinado momento dessa degeneração, um segmento de um poder judiciário dotado de força e independência, precisamente por conta desse saudável estabelecimento da democracia, abre com o bisturi o tecido doente e dele sai escória como se de uma cloaca se tratasse. Inicialmente, os líderes políticos minimizam. Existe sempre alguma maçã podre. “É um ladrãozinho”, disse o carismático líder socialista Bettino Craxi a respeito de Mario Chiesa, dirigente do seu partido que em 1992 foi apanhado em flagrante recebendo um suborno, caso que foi o início da operação “Mani Puliti”, Mãos Limpas em português. Será coincidência que sua versão brasileira tenha sido batizada de Lava Jato?

Mas a confissão de Chiesa levou ao apocalipse. A iniciativa judicial logo se tornou uma batalha entre o poder judiciário e o político, pois o que se vislumbra é uma falha sistêmica, estrutural, cuja exposição à opinião pública pode acabar não apenas com a trajetória dos condenados, mas com todo um establishment.

A batalha inevitavelmente gera golpes brutais, inclusive abusos. As algemas sobre as mesas dos promotores assustam os investigados; em um cenário de guerra de poderes, encenações judiciais (Silvio Berlusconi recebeu um aviso de abertura de investigação contra ele enquanto presidia, como líder do Governo, uma cúpula do G-7 na Itália: não se poderia ter esperado mais alguns dias?) exasperam o clima do país. Na Itália, vários investigados e presos acabaram cometendo suicídio.

O que aconteceu depois? Os resultados judiciais foram irregulares. Muitos réus foram condenados; muitos outros absolvidos. Mas a exposição ao ar livre da corrupção, de sua extensão, aniquilou o sistema político tal como estava configurado. Desapareceram os principais partidos, forçados a uma vergonhosa metamorfose. O fosso entre os cidadãos e a política alargou-se, a desconfiança em relação às instituições políticas enraizou-se profundamente – e ainda está presente. E dessa tabula rasa surgiu Silvio Berlusconi. A operação Mani Puliti começou em 1992. Em 1994, o magnata populista chegou ao poder sobre as ruínas da “velha política” (com a qual, no entanto, havia tido estreitíssimas relações). Quem estará no poder no Brasil no próximo ano? Quando as estruturas desabam, o vento populista avança com mais facilidade.
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FONTE: El País
Andrea Rizzi é italiano e chefe da Editoria Internacional 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A Forbes, a Petrobrás e os Berlusconis brasileiros

Por Paulo Franco


A Petrobrás cai para a 416ª colocação no ranking da Forbes e a Vale cai para a 413ª colocação.  Os coronéis da Mídia, mostram somente a queda da Petrobras, fazendo o maior barulho, mas escondem queda da Vale para não ofuscar a tragédia na Petrobras.




A FORBES

A Forbes, a revista já conhecida de todos.  Talvez, mais que as torres gêmeas, que o FMI, a Forbes é o grande símbolo do capitalismo moderno.  O capitalismo da ostentação, o capitalismo que exalta a concentração de rendas, que mostra uma distância social do tipo Oiapoque a  Chuí.  Quanto maior a distancia entre esses dois polos, maior é o sucesso de um desses polos, enfatizando que sucesso é estar no topo.  Aí a existência dos miseráveis espalhados pelas periferias do mundo têm  a função de exponenciar o sucesso do seleto clube Forbes. 

A PETROBRAS

A Petrobras é a maior empresa brasileira, detém o controle sobre a exploração, a produção de petróleo e gas no Brasil.  Tem mais de 100 mil funcionários diretos e talvez uns 400 mil indiretos.  Tem um desempenho que é referência mundial, não só no campo exploratório, como no desempenho operacional, econômico e financeiro, mas também nos avanços tecnológicos. 
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Neste mês de maio, a empresa recebeu pela terceira vez o prêmio, o OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, ao conjunto de tecnologias desenvolvidas para a produção da camada Pré Sal. Esse prêmio, segundo a própria Petrobras, é o maior reconhecimento que uma empresa de petróleo pode receber na qualidade de operadora de offshore.

Fato importantíssimo para a Petrobras e para o Brasil, obviamente ignorado pelos nossos Berlusconis propositalmente.  A Petrobras também está tendo uma valorização no mercado de ações  de quase 100% em pouco mais de um mês, o que a mídia também esconde da sociedade, informando somente quando os preços das ações caem.

Recentemente também, a gigante do Petroleo a anglo-holandesa Shell, comprou uma de suas grandes rivais pela bagatela de US$ 70 bilhões, o BG Group,  tornando-se o maior parceiro da Petrobras na exploração de Petróleo e Gas.  Analistas tem declarado que na verdade a Shell comprou o "Brasil" ao fechar essa aquisição do BG Group. 


OS BERLUSCONIS BRASILEIROS

Os Berlusconis brasileiros, é uma denominação atribuída aos coronéis da mídia brasileira,  pela organização internacional RSF - Repórteres Sem Fronteiras.  Essa denominação é uma alusão ao poderoso, bilionário,  neoliberal, proprietário da Mediaset e do clube de futebol A.C. Milan. Político poderosíssimo, foi primeiro-ministro por 4 vezes.

Os Berlusconis brasileiros, mais ricos que o próprio Silvio Berlusconi, são também poderosíssimos, também, mais poderosos no Brasil do que o próprio Berlusconi na Itália.  Encabeçam a lista das famílias mais ricas do Brasil desempenhando o papel de porta voz e "ministério da Comunicação e Propaganda" da elite burguesa brasileira.

terça-feira, 21 de abril de 2015

BRASIL: O país dos trinta Berlusconis

Bernoit Hervieu do Reporters Sem Fronteiras


Os generais desaparecem, mas os coroneis permanecem


INTRODUÇÃO



Nenhum país havia conseguido anteriormente conquistar a organização, uma a seguir à outra, dos dois mais importantes acontecimentos esportivos do planeta. A obtenção, com dois anos de intervalo, da próxima Copa do Mundo de futebol e dos 31º Jogos Olímpicos de verão confirmou a consagração do Brasil como nova potência, tendência iniciada durante os dois mandatos de Inácio Lula da Silva (2003-2011). Seus indicadores favoráveis - apesar de um menor crescimento previsto para 2013 - destoam num mundo em crise. Em dez anos, o “impávido colosso” descrito pelo hino nacional reduziu suas elevadas disparidades sociais, adquiriu uma influência diplomática incontestável no continente - e mais além - e atrai atualmente tanto os investidores como novas vagas migratórias, em parte provenientes de uma Europa em recessão. Tal não significa, porém, que o Brasil tenha posto um termo à insegurança, à corrupção e às desigualdades. Além disso, em 2012 atingiu um amargo recorde de jornalistas mortos: um total de onze, dos quais cinco por razões diretamente relacionadas com sua profissão. Esse número coloca o país entre as cinco nações mais mortíferas para o jornalismo. Mas os assassinatos não são os únicos ataques à liberdade de informação. O Brasil apresenta um nível de concentração mediática que contrasta fortemente com o potencial de seu território e a extrema diversidade de sua sociedade civil. O colosso parece ter permanecido demasiado impávido no que toca ao pluralismo, um quarto de século depois do regresso da democracia. Embora conte com uma das mais numerosas comunidades de internautas do mundo e até com um Facebook nacional (Orkut), ainda está longe de oferecer a todos seus cidadãos um igual acesso aos novos suportes da informação, apesar de seu aparente nível de desenvolvimento. A internet sofre censuras e bloqueios com maior frequência que nos países vizinhos. Este panorama contrasta com a imagem que o Brasil tenta promover de si mesmo nos anos que antecedem a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.



O JORNALISMO NAS MÃOS DOS "CORONÉIS"



Dez grandes grupos dividem entre si o mercado


As características do mecanismo geral de funcionamento da mídia estorvam a livre circulação da informação e impedem o pluralismo. Dez grandes grupos econômicos, correspondentes a outras tantas famílias, dividem entre si o mercado da comunicação de massas. O espectro audiovisual é claramente dominado pelo grupo Globo, sediado no Rio e propriedade da família Marinho. Seguem-se SBT (Sistema Brasileiro de Televisão, grupo Sílvio Santos), a Rede Bandeirantes (grupo Saad) e Record (detido pelo bispo protestante evangélico Edir Macedo, ver apartado). Na imprensa escrita, o grupo Globo também ocupa um lugar privilegiado, graças ao diário do mesmo nome. Seus principais concorrentes nacionais são os grupos Folha de São Paulo (família Frias Filho), O Estado de São Paulo (família Mesquita) e ainda, no segmento das revistas, a Editora Abril e seu semanário Veja . Embora a polarização da imprensa brasileira seja menor que em seus vizinhos sul-americanos, nos quais os setores privado e público se enfrentam num contexto de “guerra mediática”, isso se deve em parte às relações quase incestuosas entre os poderes político, econômico e mediático. A concentração e, no âmbito local, as pressões e a censura constituem os alicerces de um sistema que ainda não foi remodelado desde o final da ditadura militar (1964-1985) e do qual a mídia comunitária é habitualmente a primeira vítima (ver apartado). Os generais desapareceram, mas os coronéis permanecem.
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Grande terratenente ou industrial e ao mesmo tempo governador ou congressista, o “coronel” em sua acepção brasileira também é proprietário de vários meios de comunicação, dono e senhor dos suportes de opinião em seu território. A cultura do “coronelismo” se encontra na base da fortíssima dependência da mídia com respeito aos centros de poder.

... "É mais fácil derrubar um Presidente da República do que revogar uma concessão da frequência de qualquer político" disse Paulo Bernardo, ex-Ministro da Comunicação. 

“Você conhece muitos países democráticos em que os políticos possuam tantos meios de comunicação e ao mesmo tempo distribuam frequências, em nome do Estado, das quais eles são os principais beneficiários ? A
lei fundamental proíbe expressamente esse conflito de interesses. Como também proíbe os monopólios e os oligopólios. Mas não existe uma lei que defina o que é um monopólio ou um oligopólio, e se for preciso o político dono dos meios utiliza um testa-de-ferro, na pessoa de um irmão, um primo ou um tio”, afirma Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás e colunista do Estadão e da revista Época.

A tutela financeira e política não é, infelizmente, o único elemento que põe em causa uma informação livre e plural. Outro obstáculo de não menor importância reside no poder judicial, que se verga com facilidade aos interesses do poder local. Também nesse aspeto a herança do “coronelismo” tarda em desaparecer.
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Leia o estudo na íntegra: O Pais dos Trinta Berlusconis