BOAS VINDAS

A idéia deste blog é a criação de um espaço para o questionamento de duas grandes forças das ideologias atuais: o Capitalismo e o Socialismo. Que, senão são coincidentes,não são também totalmente opostas. Terceira Via é nada menos do que uma Resultante dessas duas forças. Abrindo assim, um campo para o existência de uma opção, que não é uma coisa nem outra e ao mesmo tempo são as duas coisas. Eu acredito muito nessa vertente, como alternativa para convergir anseios de ambas as correntes. Num olhar metodológico, poderiamos enxergar essa possibilidade como uma demonstração empírica da dialética. Enquanto o Capitalismo está mais associado ao racional, à eficiência, à lógica; o Socialismo está mais associado ao nosso cognitivo, à sensibilidade, sentimentos, percepções, etc. Acredito ainda, que só a Democracia viabiliza essa vertente. A Ditadura, sem dúvida, enviesará para o socialismo ou para o capitalismo radical. ENTÃO SEJA BEM VINDO, COLOCANDO SUA CONTRIBUIÇÕES, SUAS IDÉIAS, SUAS DÚVIDAS, ETC. (Paulo Franco)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

BRASIL, CELEIRO DO MUNDO

Especial para Infolatam por Luis Esteban González Manrique (23-01-2013)



Depois de um ano decepcionante para a economia brasileira –em 2012 o PIB mal cresceu alguns décimos acima do 1%, enquanto a inflação foi de 5,84%–, também não parece que neste ano a sétima economia do mundo enfrentar uma situação melhor.

Caso sejam liberados os preços dos combustíveis, do transporte e da eletricidade, que até agora estiveram represados, a inflação poderia atingir neste ano o 6%, com um crescimento que poucos acreditam que irá atingir o 4% fixado pelo governo de Dilma Rousseff para poder enfrentar em melhores condições as eleições gerais do próximo ano.

No princípio de 2012, a Bolsa de São Paulo antecipou que cerca de 40 companhias sairiam à bolsa ao longo do ano. Apenas três fizeram isso. Segundo a pesquisa Doing Business do Banco Mundial, o Brasil figura no posto 130 no ranking mundial, enquanto a proporção do investimento estrangeiro direto em relação ao PIB foi de 1,9% em 2009 e de 2,9% em 2012, frente ao 7% do Chile entre 2008 e 2011.

Contudo, esses números não embaçam as inquestionáveis fortalezas do gigante sul-americano. O motor da economia brasileira é o consumo, que representa 60% do PIB, frente ao 35% na China. O Brasil está hoje entre os quatro maiores consumidores mundiais de uma longa série de produtos que vão desde as guloseimas aos licores. Neste ano, superará o Japão como o maior mercado do mundo de cosméticos, com 43 bilhões de dólares anuais, segundo Euromonitor. A ascensão de 35 milhões de pessoas à classe média na década passada criou condições de pleno emprego (4,6% de desemprego) nas seis principais cidades do país.

O ‘milagre agrário’ brasileiro


Porém, o desenvolvimento agrícola brasileiro é o que tem maiores envolvimentos globais. A mudança climática, a crescente escassez de água potável e a diminuição de terrenos cultiváveis em muitos países estenderam nos últimos anos um verdadeiro ‘agro-pessimismo’.

Dado que o poder aquisitivo nos países em desenvolvimento aumentará a um ritmo maior do que o crescimento demográfico –e que se verá acompanhado de um maior consumo de proteínas de origem animal–, para 2050 a produção de grãos terá que aumentar 50% e a de carne deverá ser duplicada para poder satisfazer a demanda global.



A ONU advertiu que em 2025 os dois terços da população mundial poderiam viver em condições de “estresse hídrico”. Dos 210 países do planeta, 190 já têm escassez de água e apenas em 10 o recurso é abundante. Segundo o World Water Resources Group, um terço da população mundial viverá, em meados do século, perto de bacias hidrológicas com um déficit de fornecimento para consumo humano de 50%.

Poucos países estão em condições de cobrir essas carências. Um deles é o Brasil. Segundo a FAO, o país tem um potencial de terras cultiváveis de 400 milhões de hectares. Hoje, apenas cultiva 50 milhões, que cobrem 28% de seu território. Essa capacidade agrária inutilizada é o dobro da dos EUA e da Rússia juntos, os dois países que seguem na lista.

Segundo diversas estimativas, apenas 40% do aumento da produção mundial de cereais se deve a melhoras na produtividade, enquanto 60% é atribuído à ampliação da fronteira agrícola. Nos anos sessenta, 25% provinha de mais terras cultiváveis e 75% de aumentos na produtividade.

Norman Burlaug, o pai da ‘revolução verde’ dos anos sessenta, antecipou que o único modo de salvar os ecossistemas mais vulneráveis do planeta era produzir mais alimentos em lugares como as grandes planícies sul-americanas. De fato, a América Latina e o Caribe (ALC) é uma das poucas regiões mundiais que não figura no mapa do ‘estresse hídrico’. ALC tem a maior disponibilidade média de água doce do mundo: quase 24.400 metros cúbicos por pessoa e 31% do total das reservas globais.

O Aquífero Guarani, por exemplo, que alberga mais de 40.000 km3 de água, se estende ao longo de 1,2 milhões de quilômetros quadrados abaixo da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil. O volume explorado atualmente oscila entre 40 e 80 km3 anuais.

Por sua vez, a ONU estima que o Brasil dispõe de 8 bilhões de km3 de água renovável ao ano, mais do que toda a Ásia junta, que tem 4 bilhões de habitantes, frente aos 190 milhões do Brasil. Ademais, o Brasil recebe mais água da chuva do que toda a África.

A agricultura da ALC produz três vezes mais alimentos do que consome, o que explica a capacidade excedente que se dedica aos biocombustíveis. Como Brasil pode adaptar a soja –nativa de zonas temperadas da Ásia– a condições climáticas tropicais, o agro brasileiro está alimentando a China, o país mais povoado do mundo, em momentos em que aumenta o voraz apetite do dragão.

O extraordinário é que há 30 anos, o Brasil era um importador líquido de alimentos. No entanto, entre 1996 e 2006, o valor total de suas colheitas passou de 23 bilhões de dólares para 108 bilhões: um aumento de 365%. Em apenas uma década, o país multiplicou por 10 suas exportações de carne, com o que superou a Austrália como primeiro exportador mundial e o é também de cana de açúcar, suco de laranja, café, etanol e carne de aves granjeiras.

Desde 1990, a produção de soja brasileira passou de 15 para 60 milhões de toneladas anuais, com o que hoje é o segundo maior exportador depois dos EUA. E ainda que sua produção represente 25% do total mundial, só utiliza para isso 6% de seus terrenos cultiváveis.

Entre os seis maiores exportadores de grãos (os outro são EUA, Canadá, Austrália, Argentina e a União Européia) o Brasil é o único que é tropical. A agroindústria representa hoje 40% das exportações do país e emprega 37% de sua força trabalhista. Não é menos importante que o Brasil tenha conseguido essa façanha sem subsidiar os seus agricultores. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), as ajudas ao setor apenas representaram o 5,7% de seus rendimentos, frente ao 12% nos EUA e o 29% na UE.

Tecnologia agrária


A grande expansão da fronteira agrícola brasileira teve como cenário o ‘cerrado’, a grande savana tropical dos estados de Mato Grosso e Goiás. Mas o sucesso brasileiro explica-se mais pelas I+D, contribuições da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), uma companhia pública criada em 1973 para aumentar a produtividade do campo no meio de uma crise energética que tornou os subsídios agrícolas insustentáveis.


Hoje, a Embrapa é a instituição de pesquisa tropical mais importante do mundo, cobrindo campos como a biotecnologia, a pesquisa genética e a nanotecnologia. Quando a Embrapa começou a funcionar, o ‘cerrado’ era considerado praticamente inutilizável para a agricultura pela extrema acidez de seus solos e sua escassez de nutrientes.

Tudo começou a mudar quando, nos anos noventa, seus cientistas conseguiram alcalinizar seus solos ‘semeando’ cinco toneladas de cal por hectare. Ao mesmo tempo, a Embrapa cultivou bactérias para elevar o nível de captação de nitratos dos cultivos, de maneira que precisassem de menos fertilizantes, e adaptou ao meio uma variedade de pasto africano para alimentar o gado. A transformação genética da soja permitiu obter duas colheitas ao ano. Como resultado, hoje o ‘cerrado’ é responsável por 70% da produção agrícola do país.

O lado escuro do modelo


Segundo a Fundação Getúlio Vargas, a metade das cinco milhões de explorações agrícolas do país ganham menos de 3.000 dólares anuais e supõem apenas 7% da produção agrícola total. As 1,6 milhões de grandes explorações, ao contrário, representam 76% da produção, o que desmente que o futuro da agricultura mundial vá depender de granjas pequenas dedicados a cultivos orgânicos.

Mas esse modelo de desenvolvimento tem um lado escuro. E numerosos problemas. A Confederação Agrícola Nacional (CAN), que representa os cinco milhões de agricultores e detentores de terra, é frequentemente denunciada por organizações ambientais e movimentos como o dos “Sem Terra” por sua capacidade para influir sobre a legislação que afeta seus interesses. A presidenta da CAN, a senadora Katia Abreu, lidera, ademais, o lobby agrário no Congresso federal, conhecido como o ‘bloco Ruralista’, que inclui quase a metade dos 513 deputados da câmara baixa.

A presidenta da CAN, a senadora Katia Abreu, lidera, ademais, 
o lobby agrário no Congresso federal

No livro “Partido da terra, como os políticos conquistam o território brasileiro”, o jornalista Alceu Castilho descreve como desde prefeitos de povos pequenos a senadores conseguiram ficar com as melhores terras do país. Blairo Maggi, por exemplo, uma das maiores fortunas do Brasil, é o maior produtor mundial de soja, faturando 2,4 bilhões de dólares anuais em seus 200.000 hectares no ‘cerrado’ mato-grossense, e que foi durante dois períodos governador do Mato Grosso.

Desde 2004, quando foi eleito governador, a taxa de desmatamento do estado se duplicou. A ONG ecologistas denunciam que a soja consome rapidamente os nutrientes do solo, para isso são necessárias quantidades enormes de fertilizantes, pesticidas e herbicidas que depois contaminam os rios.

Nos dois últimos anos, 10% das florestas do estado foram queimadas, muitas vezes em incêndios provocados para ampliar a fronteira agrícola. “À medida que sobe o preço da soja”, assegura Sandro Menezes, biólogo da filial brasileira da ONG Conservation International, “as florestas são derrubados”. Não é estranho: a taxa de desmatamento continua muito perto dos índices de matérias primas agrícolas da Chicago Board of Trade.

Segundo Castilho, sua enorme influência permite aos detentores das terras evadir a justiça por crimes que vão desde o roubo de terras de pequenos proprietários ao uso de mão de obra escrava em suas explorações agrícolas.

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